Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

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Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2005-05-11

A Segunda Guerra Mundial acabou mesmo?

Estamos em plena comemoração do fim da segunda guerra mundial. Faz agora sessenta anos que findou aquela que foi considerada a mais sangrenta contenda da História. Estima-se em cinquenta milhões de mortos o saldo final dos cerca de cinco anos dessa guerra que, começando por ser europeia, pela sua natureza passou a mundial! De facto, e tal como a primeira, esta guerra era antes de tudo uma guerra europeia. As questões que se colocavam eram sobretudo intra-europeias (não falo dos motivos imediatos do seu início, mas dos motivos profundos das suas géneses) mas o facto é que a Europa de então era a sede de todos os impérios coloniais. Falar nos países europeus era falar nos impérios britânico, francês, espanhol, português, belga e holandês. Os antigos grandes impérios europeus – o romano, agora italiano e o germânico – tinham ficado de fora na partilha do mundo. Sobretudo a Alemanha, sendo regionalmente uma potência industrial forte e não dispondo de colónias, dependia do recurso ao mercado aberto para se aprovisionar em matérias-primas, em desvantagem face a França e à Inglaterra. Os próprios Estados Unidos não tinham ainda uma posição tão dominante quanto hoje têm. O que de facto mudou depois da Segunda Guerra Mundial não foi o mapa europeu, mas o mapa do mundo. Os vencedores dividiram o mundo em duas metades, mas a metade de “cá”, que deveria ter tido como vencedores a França e a Grã-Bretanha, foi penhorada ao auxílio americano, sem o qual a guerra não teria tido o rumo que teve. E o mesmo aconteceu por tudo o mundo. Foram dois novos poderes que ganharam a guerra: o americano e o soviético. Senão, veja-se o rumo que tomaram as colónias europeias: Logo em 1947 a Índia e o Paquistão se tornam independentes da Grã-Bretanha, seguindo-se todas as outras grandes colónias britânicas, francesas, belgas e holandesas. Portugal e Espanha resistem um pouco mais, mercê da sua não entrada na guerra mas 1975/6 vê o desmantelar do frágil império português e o abandono do Sahara pelos espanhóis. O que existe agora são pequenas excrescências britânicas como Gibraltar ou Malvinas, espanholas como Melilla ou Ceuta, francesas como Martinica ou Tahiti e uma série de outros pequenos territórios americanos, holandeses, australianos, neo-zelandeses que não se poderão chamar colónias no sentido mais tradicional do termo. Os impérios no sentido tradicional do termo, acabaram na sequência da Segunda Guerra Mundial. E isso foi bom, embora se saiba que as cliques dirigentes de muitos desses países são meros fantoches das antigas potências coloniais. Mas essas questões a seu tempo serão internamente resolvidas. Haverá portanto que saudar estes sessenta anos, embora se saiba que muitas outras guerras houve neste período, desconhecendo-se quantos mortos já custaram ao mundo, e serão sempre demais. Nunca foi tão verdadeira a frase de Paul Valéry “A guerra é um massacre entre pessoas que não se conhecem em nome de pessoas que se conhecem mas não se massacram”. Se na Idade Média os dirigentes iam na frente, agora refugiam-se cobardemente da retaguarda, como quem joga xadrez virtual. Essa tendência começou a desenhar-se exactamente na guerra cujo fim agora se comemora: Hitler jamais matou um judeu, um cigano ou um russo, e no entanto eles contaram-se por milhões! Seis a sete milhões de judeus e ciganos, vinte e cinco milhões de russos. A talho de foice, sempre recordo que celebramos mais o genocídio judeu que todos os outros genocídios perpetrados pelos nazis. Ainda esta semana se inaugurou mais um memorial judeu. O extermínio de judeus e ciganos marcará para sempre a memória desta segunda guerra mundial. Terminada que tinha sido já a Inquisição e a escravatura negra, julgava-se que uma limpeza étnica era coisa que tinha sido arredada do mundo dito civilizado, mas não. Nos campos de extermínio da Alemanha e da Polónia ocupada como Auschwitz, Dachau ou Treblinka, assassinaram-se em massa etnias consideradas inferiores por Hitler. Milhões de judeus foram cremados, gaseados, exterminados, utilizados como cobaias, condenados a trabalhos forçados e a viver em condições sub-humanas. Mas essas condições não foram exclusivo da Alemanha nazi nem acabaram com a guerra. É bem verdade que muitas delas ainda hoje se verificam e são mais comuns do que o que se pensa. Ainda há poucos dias foram detectadas situações que conformam a escravatura de portugueses em Espanha. Se na Comunidade Europeia isso acontece, e não só em Espanha, é fácil imaginar que semelhantes ou piores situações existam em África, na América Latina ou na Ásia. As formas de sujeição de seres humanos são muito variadas mas sempre condenáveis. Desde o trabalho infantil, que quase sempre tem contornos de escravatura até às mulheres confinadas aos haréns. Mas de todas elas, as que mais me custam a entender, são as condições em que os palestinianos são condenados a sobreviver em territórios que historicamente sempre utilizaram. Não por causa dos arames farpados, da liberdade limitada, das prisões e campos de concentração, dos passes para poderem circular nos locais onde nasceram, embora essas sejam coisas que dificilmente entendo. Mas por uma razão muito mais simples: os judeus que assim os obrigam a viver são na sua imensa maioria netos, filhos e irmãos de muitos dos que foram escravizados ou assassinados nos condenáveis campos nazis de Auschwitz, Dachau ou Treblinka. Será que eles pensam que a vingança sobre outros povos é legítima? Será que eles pensam que uma situação de guerra como esta se pode eternizar? Será que a memória judaica é assim tão curta? Os infindáveis tribunais de Nuremberg e a caça aos nazis fugidos pareciam confirmar precisamente o contrário. Mas quem assiste ao que agora se passa na Palestina e em Israel fica com a impressão de que a memória é mesmo muito curta. Oxalá eu me engane.