Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2005-05-04

G. A. R. E. (Gabinete de Apoio Rodoviário de Évora)

Inaugura-se hoje o GARE (Gabinete de Apoio Rodoviário de Évora), vocacionado, ao que parece, para a prevenção de acidentes e segurança rodoviárias. Portugal, país um pouco avesso a associações de cidadãos (talvez resquícios do “Dispersar, dispersar! São proibidos ajuntamentos de mais de duas pessoas!” dos enformadores tempos da ditadura), vê florescerem com alguma consistência associações de prevenção rodoviária. Infelizmente, na génese desses grupos, estão quase sempre pessoas com experiências traumáticas de acidentes na estrada. Há, até por isso, que saudar o seu aparecimento e sobretudo o empenho cívico de todos os que nessas organizações dão o seu melhor em benefício de todos nós. Haverá que concluir que, quando há uma boa causa, até os portugueses são capazes de se organizar e associar! Mas à nossa aparente falta de vontade de associação, voltarei um destes dias. Hoje, quero-me congratular com o aparecimento desta nova organização humanitária e contribuir para o urgente e necessário debate sobre as condições de segurança rodoviária em Portugal.
Já aqui declarei que não me parece que o aumento das coimas e multas pelas infracções graves seja o melhor método de prevenção rodoviária. Entendo que a repressão deverá ser sempre o último argumento, esgotados todos os outros de persuasão e explicação dos benefícios do cumprimento das regras. Porque há claros benefícios! Mas em Portugal é sempre o caminho aparentemente mais fácil (mesmo que menos eficaz) que se toma. Esse é, em minha opinião, o caso do novo código, que reforça o vector repressivo sem alterar relevantemente as regras, isto é, privilegia o aumento de repressão em detrimento do aumento do civismo. É o mesmo que acreditar que os países com pena de morte têm menos crimes que os outros, o que se sabe não ser, nem nunca ter sido, verdade. Acresce a isto o facto de continuarmos a ver as forças policiais que deveriam ter como principal missão o reforço da nossa segurança comum, a criarem verdadeiras armadilhas de radar em zonas em que facilmente se excede o limite imposto de velocidade (descidas, rectas de grande visibilidade, etc.), sem com isso se entrar em situações de perigo, e mantendo sem fiscalização tão apertada zonas onde tradicionalmente esses excessos provocam acidentes, mas são mais dificilmente “fotografáveis”. Não é que, nestes casos, a lei não deva ser também respeitada, mas acredito que, para se chegar a este apuro, muitos outros e mais graves casos deveriam ter primazia. A continuação desta atitude (que acreditei que também mudaria com o novo código), ajuda a desacreditar a bondade e objectivo das novas regras e a sua eficácia, continuando a parecer-se mais com a tradicional “caça à multa” que com a mais recomendável “caça à segurança”. Aliás, haverá que recordar que, quando foi instituído o limite de velocidade dos 90 km por hora (e já lá vão umas dezenas de anos), a argumentação então utilizada era a da poupança de combustível, vivia-se então a primeira crise petrolífera. Não foram, portanto, razões de segurança que impuseram o actual limite de velocidade, mas questões (igualmente relevantes) de poupança de combustível. Convenhamos que os automóveis de hoje são incomparavelmente mais seguros que os desse tempo, mas a justificação do aumento de segurança é hoje o único argumento para limitação de velocidade.
No que à segurança diz respeito, há outras coisas que eu também não entendo: porque será que os condutores de automóveis poderão vir a ser multados se não tiverem um colete fosforescente (homologado) no carro, e o mesmo não é exigido aos ciclistas e motociclistas quando circulam de noite (ou mesmo de dia)? Eles estão muito mais expostos que os automobilistas, isto é, eles estão permanentemente expostos, ao passo que os automobilistas só excepcionalmente precisarão do colete. E além dele, dispõem de piscas de emergência e de triângulo reflector para assinalarem a sua presença! Em minha opinião, uma verdadeira vontade de segurança não poderia nunca deixar de fora ciclistas e motociclistas! E quantas vezes nós os vemos sem uma única luz de presença ou sequer uma simples superfície reflectora! Isto para já não falar dos transeuntes que circulam de noite nas bermas das estradas mal ou mesmo não iluminadas ( muitas crianças que vão ou vêm das escolas, etc.), quantas vezes vestidos de cores escuras, em particular nas noites longas, chuvosas e escuras de Inverno! E tantas outras coisas que eu gostava de entender…
É por isso que eu não acredito nas publicitadas intenções de segurança do novo código, embora acredite que, se ele for cumprido, a segurança melhore. Mas isso também já acontecia com o antigo… O que então não existia, com agora continua a quase não existir, é a explicação, a persuasão, a sensibilização, que quanto a mim é a chave do aumento da segurança nas estradas. A par com o civismo. É por isso que quero associar-me às actividades que hoje terão lugar em Évora, particularmente às primeiras promovidas pelo Gabinete de Apoio Rodoviário de Évora, e que contarão com o patrocínio do Senhor Presidente da República. Vão ter lugar ali junto ao Memorial “Uma Pessoa, Uma Vara”, ao pé da Rotunda da Malagueira/Chafariz das Bravas, na Estrada de Lisboa, e pretendem contribuir para a “promoção de uma cultura de segurança rodoviária”. Bem hajam! E que hoje seja só o primeiro dia!