Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2005-04-13

”Homem e mulher prevenidos valem o dobro!”

Environmental Law
Há duas semanas, registou-se mais um grande sismo. Entretanto, o papa morreu e, como evento, “abafou” todos os outros. Contudo, isso não pode fazer esquecer que há duas semanas se registou um grande sismo. Foi muito longe, outra vez na Indonésia. Mas este sismo, embora sem tsunami nem impacto mediático, foi de novo muito violento. Houve outra vez muitas quedas de edifícios e alguns milhares de mortos mas, não tendo havido maremoto, o número de mortes foi felizmente muito menor. Verifica-se contudo que quem morre são maioritariamente os mais pobres, os que vivem em zonas mais alteradas ecologicamente, mais expostas (onde não se deveria habitar) e os que vivem em edifícios de má construção. Já foi assim em Bam e na Turquia. Também foi assim na América Latina. Já tinha sido assim no sismo e tsunami de Dezembro. Será sempre assim. Desta vez, como da outra, o sismo foi longe, mas há condições para poder ser perto. Muito perto. Demasiado perto. Sabemos que Portugal Continental fica ligeiramente a norte de uma linha de grande sismicidade e sabemos que já várias vezes foi sacudido violentamente. Os Açores, na confluência das placas americana, euro-asiática e africana já se habituaram aos constantes sismos e deveriam para nós, continentais, constituir uma referência permanente. Também o sismo de 1755, que foi um dos mais destrutivos e violentos da história da Humanidade, não nos deveria sair da memória, porque não estamos livres de outro de igual intensidade. E antes houve sismos em 1722, 1551, 1531, 1356, dois em 1345, 1344, 1320 e 1309 e de antes, não tenho registos, o que não quer dizer que não tenha havido sismos. Embora os eixos sísmicos mais activos nos últimos anos estejam de alguma forma distantes do “nosso” eixo, o facto é que os especialistas dizem que sismo, irá haver; só não sabem é quando! Essa parece ser uma verdade com que teremos de viver. Mais que isso, essa é uma verdade para que deveríamos estar prevenidos. Será que temos feito tudo certinho? Será que a construção anti-sísmica (em que Portugal foi pioneiro, introduzindo-a na sequência do sismo de 1755) tem sido cumprida? Será que as recomendações legais têm sido seguidas? Será que o nosso comportamento tem em conta a eventualidade de um sismo? Numa só frase: será que podemos andar todos relativamente descansados? A resposta parece-me óbvia: só se andarmos todos distraídos é que poderemos responder “Sim”; de contrário teremos de responder com um “Não!” do tamanho do país. Temos por cá o costume de fugir à lei e de não cumprir o que está estipulado. Recordo-me, a este propósito, que num edifício público que desenhei, fui um dia encontrar o compartimento onde se localizava a central de incêndios “armada” em depósito de cadeiras e, as cadeiras que ali não cabiam, atulhavam as saídas de emergência! A justificação que me deram foi que o depósito para cadeiras que eu tinha previsto, tinha sido transformado em sala de outra coisa qualquer que não tinha sido programada. No entanto, disseram-me, quer a central de incêndios, quer as saídas de emergência, nunca tinham tido utilidade… Sem comentários! Tudo isto à revelia dos responsáveis que, logo que foram avisados, mandaram repor tudo como devia ser. Mas este espírito de imprevidência e (mais que isso) de inconsciência, é infelizmente muito comum. Quando, por exemplo, se tenta ludibriar a lei e construir clandestinamente um compartimento num sítio indevido, pode-se estar a colocar em risco a vida dos moradores desse edifício ou mesmo do quarteirão inteiro. Cabe aqui também incluir no rol dos culpados, os que se deixam corromper ou que por qualquer outra razão permitem que as coisas se façam indevidamente. Os que pisam o risco, em caso de sinistro, são sempre os primeiros a sacudir a água do capote e a apontar o dedo a quem fechou os olhos para que tudo pudesse ser assim feito. Depois levantam-se inquéritos, e são as instituições responsáveis as que ficam com a fama de incompetentes ou corruptas. Só que a competência e integridade das instituições é-lhes dada por pessoas. E são essas pessoas que depois serão culpabilizadas. Lembremo-nos do desastre de Entre-os-Rios e vejamos o que agora se está a passar em tribunal!
Mas nem só de “grandes coisas” é feita a nossa segurança (a nossa, e a dos outros): Quando se estaciona fora dos locais próprios, não se está somente a desrespeitar os direitos imediatos dos outros e a lei, mas também a descurar os riscos de sismos ou incêndios, que a qualquer momento podem acontecer. Um carro estacionado que atravanque ou feche uma rua, pode vir a ser o responsável por um número elevado de feridos que não se possa ou se demorará a socorrer, em caso de emergência. Uma porta de emergência atulhada de caixotes –ou de cadeiras- pode levar ao mesmo resultado. A falta evidente de civismo, que se reflecte nisto e em outras atitudes de laxismo e falta de respeito pelo próximo, pode vir a ter uma face bem mais negra, se algo de inevitável e grave acontecer. E quem assim age, provavelmente sacudirá a própria culpa do capote, mas poderá ter a certeza de que dos remorsos jamais se livrará. Creio que vale mesmo a pena ser mais civicamente correcto e assim prevenir pelo menos o evitável.
Já agora, deixe-me perguntar…. Você já pensou o que deve fazer em caso de sismo? Você sabe onde se deverá abrigar (e aos seus) durante um sismo? Você sabe quais são os pontos mais resistentes de sua casa? Se tem crianças em casa, já as instruiu sobre o que devem e não devem fazer quando houver uma emergência destas? E aos adultos? E já lhes disse que o pior é entrar em pânico? E já se lembrou que quanto melhor todos e cada um souberem o que fazer em caso de emergência, menor será a probabilidade de pânico? E sabe o que tem que ter em casa, para sobreviver e fazer face ao possível isolamento, em caso de sismo? E já o tem?
O velho ditado de “Homem prevenido vale por dois” pode ser machista e por isso ter caído em desuso, mas continua a ser válido. Mais vale mudá-lo um pouco e dizer “Homem e mulher prevenidos valem o dobro”. Mas sobretudo, e em nome de todos nós, levá-lo à prática. É que nunca se sabe quando…