Carol Wojtyla, o Papa que veio do Leste
Carol Wojtyla morreu. O Papa João Paulo II morreu. Pode não se ser católico nem cristão. Pode mesmo nem se ser crente. Mas o facto é que no Mundo, e em particular nesta região do Mundo, a figura do papa é incontornável.
O mundo que João Paulo II deixa é claramente diferente do mundo que o recebeu há vinte e seis anos atrás, quando Carol Wojtyla, o bispo vindo do Leste, se tornou João Paulo II. O facto de ter sido um bispo do Leste o então escolhido para papa, era já um sinal das intenções da Igreja Católica relativamente àquela região da Europa. O bloco comunista dava sinais de algumas contradições sociais (de que o Sindicato Solidariedade da Polónia natal de Wojtyla era já um exemplo) e um papa da região garantia que as atenções se fossem centrar ali, ao arrepio da linha política do poder de então. Isto, para além de assegurar um bom conhecimento do tecido social, humano e político da região. E João Paulo II correspondeu, tendo sido um dos obreiros das alterações que se verificaram. Nestes vinte e seis anos, o Sindicato Solidariedade deixa de ser um facto isolado no Leste para se tornar (quase) numa regra. Se a circunstância de o papa ser polaco era já de si uma afirmação de que existia uma igreja católica nos países comunistas, a sua força denunciava que a construção do “homem novo” de que se reivindicavam os regimes comunistas, tinha falhado. Como se tem vindo paulatinamente a verificar ao longo dos anos.
João Paulo II contrariou as oligarquias do Leste de onde vinha, mas também se opôs às oligarquias encapotadas do Oeste. A vivência do período da guerra e a luta anti-nazi em que então se empenhou (apoiando a fuga de judeus) tinham-lhe dado consciência da multiplicidade de escolhas que por vezes é necessário fazer. Não sei se por isso, João Paulo II levou a Igreja Católica a estender a mão a outras religiões, assim anulando ou diminuindo ódios antigos. Em simultâneo, esse movimento permitiu-lhe reforçar a influência da própria Igreja Católica (enquanto local de encontro de outros credos), tornando-a simultaneamente mais tolerante relativamente a outras religiões.
A sociedade global foi algo que entendeu desde o início do seu pontificado, e por isso percorreu incansavelmente todo o mundo. Não só visitou os locais de culto da própria Igreja católica, mas também muito outros para lá desses limites. Nunca antes qualquer outro papa tinha ido tão longe. Perdendo de alguma forma a pose magestática e vaticana dos seus antecessores, João Paulo II adquiriu o estatuto de caminheiro e peregrino, transformando-se assim numa personagem fundamental e única. Se o islamismo postula que um muçulmano deve (desde que possa) ir uma vez na sua vida a Meca, João Paulo II transformou-se no Vaticano que vai até todo e qualquer crente, onde quer que ele esteja.
Não creio que haja uma só pessoa que pense por sua cabeça, que tenha estado a todo o momento de acordo com João Paulo II. No entanto, isso não invalida a relevância do seu pontificado. Para além das posições tomadas para dentro da própria Igreja Católica Apostólica Romana e que só a ela dizem respeito, as mensagens que enviou ao Mundo foram de inegável importância e impacto. As pontes que lançou a outras religiões, o perdão que pediu para erros anteriormente cometidos pelos filhos da sua Igreja, e a forma como criticou os regimes que se opunham à liberdade do Homem, quer por opressão política, quer por opressão religiosa, quer ainda por opressão económica, valeram-lhe o reconhecimento e o respeito de muitos mais que simplesmente os católicos que tinha o dever de conduzir e perante quem, de alguma forma, tinha de responder, enquanto seu representante.
Se por um lado nunca foi muito claro na sua posição relativamente à luta de libertação do povo timorense, por outro foi um forte crítico da Guerra do Iraque e das guerras em geral. Não descurou as questões ecológicas, mostrando grande sensibilidade a esse problema de inegável importância para o futuro da Humanidade, mas teve uma posição de inflexível condenação do uso do preservativo, único meio eficaz conhecido –para além da inconsequente proposta de abstinência- contra a propagação da SIDA e de controle da explosão demográfica. Usou com uma modernidade que deveria fazer corar muitos governos, as novas tecnologias informáticas, de informação e de comunicação, assim fazendo chegar com eficácia o seu pensamento e o da sua Igreja a todo o mundo. Esta atitude foi um forte contributo para que a sua influência ultrapassasse a influência da própria Igreja Católica. Morreu portanto, um papa maior que a sua própria igreja. Que descanse em Paz!
Não há ninguém insubstituível, é certo, mas também não há duas pessoas iguais. É esse o legado e é este o Mundo que o seu sucessor vai encontrar. E que vai ter que carregar sobre os ombros, venha ele de Itália, da América Latina ou de qualquer outra região. Seja qual for a ideia do Conclave que o vai escolher.

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