As Constituições
Faz trinta anos que elegemos a nossa primeira assembléia constitucional. Há cerca de trinta anos tomavam lugar na então recentemente rebatizada Assembléia da República (sepultando assim a Assembléia Nacional, que se pretendia também representante – naturalmente condicionada - dos povos africanos e asiáticos sob domínio português) o primeiro grupo de deputados livremente eleitos. E com uma votação nunca mais igualada, superior a 90%! Os partidos representados eram pouco mais ou menos os que hoje conhecemos: o PS, o PPD (rebatizado posteriormente de PDS), o PCP, o CDS (rebatizado mais popular e recentemente de PP), o MDP/CDE (herdeiro das tradições democráticas dos tempos da ditadura e que se extinguiu por esgotamento pouco depois, disseminando os seus militantes por outros partidos, a UDP (que veio, com outros partidos e movimentos, a dar origem ao Bloco de Esquerda – BE), e a ADIM. Esta última, a Associação para a Defesa dos Interesses de Macau, assegurava a representação da única parcela do Império que não era uma colónia, mas sim uma feitoria que nos tinha sido legalmente concedida pela China no século XVI. Era nesse já longínquo 1975, Presidente da República o General Costa Gomes e Primeiro-Ministro o General Vasco Gonçalves. Com tão ampla participação popular nessas primeiras eleições livres, só segundas e obscuras intenções poderiam apodar este período de autoritário, embora as referências que hoje se ouvem ao “gonçalvismo” tendam para isso. E “regime gonçalvista” ouve-se sobretudo da boca dos que pudica e branqueadamente chamam ao salazarismo “regime anterior”. Como se de alguma forma fosse comparável o ano e meio de louca liberdade abrilista ao regime autoritário que nos silenciou por quase cinco décadas! Vivia-se então inebriadamente a liberdade, e o povo (e povo éramos todos nós) tentava recuperar velozmente todos os anos em que ela lhe havia sido negada. Condensavam-se assim, num só tempo, as alegrias da liberdade por cá perdida em 1926, do silenciado armistício da capitulação nazi que levou à paz mundial em 1945, da contestação libertária e popular do Maio de 1968 francês e tudo o que estava de permeio, incluindo o tranquilo mas pacificamente suspeito “flower power” norte-americano. Foi portanto um povo apaixonado pela liberdade elegeu a Assembléia Constituinte. Foi também um povo empolgado pela liberdade, e que queria partilhar essa mesma liberdade com os povos irmãos das colónias, que impôs o fim da guerra e uma rápida descolonização. Os detalhes sobre o “como” e outras questões não eram então mais que isso: detalhes! O importante era a liberdade e o resgate das nossas consciências. Não terá sido portanto o mais recomendável e racional processo de descolonização, mas terá sido o então possível, e enquanto tal, o melhor. E hoje, quem ouço e vejo a fazer as críticas mais severas a esse processo, são sobretudo aqueles que então andavam de fraldas: ou porque só tinham idade para isso, ou porque a liberdade lhes provocava incontinência. Isto é, os menos capacitados. Hoje, é claramente fácil criticar e dizer o que correu mal, mas ainda não ouvi nem li ninguém convincentemente dizer como deveria ter sido, nas condições que então se viviam. Mas ainda é cedo, dizem os historiadores, para se fazer a história desapaixonada desses tempos, embora quem os tenha vivido não os troque por nada! Entretanto, e na relativa tranquilidade da Assembléia da República (naquela altura, qualquer tranquilidade era necessariamente relativa...), a Constituição que ainda hoje é a nossa ia sendo feita, sempre à vista dos jornais e da televisão, que é como quem diz, à nossa vista. E, mal ficou pronta, foi Portugal inundado por milhares de livros e livrinhos que no-la deram a conhecer sob todas as suas formas (em versão de bolso ou cartonada, comentada ou singela, com as votações e posições dos partidos ou sem elas, etc., etc., etc...).
Hoje, estamos de novo numa encruzilhada constitucional. Trata-se da futura Constituição da Europa a que pertencemos, e sobre a qual dentro em pouco seremos chamados a nos pronunciar. Não foi naturalmente feita cá mas “lá”, e o contributo dos euro-deputados portugueses é concordantemente tão diminuto quanto a nossa posição na Europa. Nem os média (é assim que agora se chama aos jornais e às televisões) nos deram quase quaisquer ecos da sua feitura. Mas a sua aceitação condicionará seguramente a nossa vida colectiva e individual. Até agora, não vi nenhum livro, brochura ou desdobrável onde ela venha escrita, apreciada ou comentada. E se há, andam desaparecidos. Mas sobre ela nos pronunciaremos em data próxima. Estamos em democracia plena, mas ainda nenhuma informação relevante nos foi concedida sobre aquilo sobre que teremos de nos pronunciar ou seja, a Constituição Europeia. A liberdade de que regrada e racionalmente gozamos hoje, não se deu até agora ao incómodo nem ao trabalho de formar/informar o nosso voto: só nos diz que o quer. E quer que seja “Sim”.
Só espero que os que hoje andam de fraldas (qualquer que seja o motivo) não venham amanhã protestar, acusando severamente (mas também com alguma razão) os que dentro em pouco irão (talvez) aprovar a futura mas desconhecida Constituição de todos nós.
