Annus Mirabilis
Faz este ano cem anos que Albert Einstein publicou cinco dos seus mais importantes trabalhos científicos, com isso mudando a face do mundo. Estão neste lote de luxo, a fabulosa Teoria Restrita da Relatividade, os fundamentos da teoria quântica (que hoje nos permite abrir portas através de células fotoeléctricas e muitas outras coisas) e a medição do tamanho dos átomos (a sua tese de doutoramento). Por isso se chamou ao ano de 1905 o Annus Mirabilis. Cem anos depois, somos todos tributários do génio de Einstein, que sempre vemos como um velho jovial, desgrenhado e simpático. Esquecemos é que nesse já longínquo ano de 1905, Einstein tinha apenas 26 anos! Todo o resto da sua longa vida ele dedicou ao desenvolvimento das formulações então feitas, sem descurar a sua tenaz militância anti-fascista (que o levaram a emigrar para os Estados Unidos da América em 1933) e pacifista (subscrevendo em 1955, o seu último ano de vida, o manifesto de renúncia às armas nucleares que ele próprio tinha tornado possíveis). Pois há oitenta anos, a 11 de Março de 1925, o Professor Albert Einstein aportou em Lisboa, a caminho do Atlântico Sul. Das breves horas que em Lisboa passou, ficaram-lhe impressões que anotou no seu diário. Não resisto a reproduzir algumas, pelo que revelam de nós, num rápido olhar de um homem excepcional: “Dá uma impressão maltrapilha, mas simpática. A vida parece correr confortavelmente, bonacheirona, sem pressas ou mesmo consciência. (...) Por toda a parte tomamos consciência da antiga cultura. (...) Esta terra mal cuidada inspira em mim uma espécie de saudade.” Há oitenta anos foram estas as impressões que deixamos no ilustre Einstein, para além de uma fugaz mas esbelta imagem das varinas de então! São obviamente observações de passagem, sem a pretensão de qualquer profundidade ou rigor. Disso são testemunha as formas como Einstein as coloca: “Dá a impressão...”, “A vida parece...” Mas nós sabemos descortinar o que de verdadeiro existe nestas breves notas! Se se entende o epíteto de simpático, melhor se entende o de maltrapilho. Muitos anos depois, e com uma perspectiva muito diferente, José Fanha caracterizar-se-ia em nome de todos nós como “Eu sou português aqui, nos cordões do desenrasca (...), um português sem mestre, mas com jeito!” e é tudo isso que vamos sendo, embora o Mundo mude e cada vez nos seja mais penosa e problemática a manutenção dessa imagem descuidada (“sem pressa ou mesmo consciência”) mas verdadeira. Para que possamos manter o essencial da nossa genuinidade, é urgente mudar alguma coisa e creio que a falta de consciência deveria ser uma delas. E para que esta terra “mal cuidada” continue a inspirar “uma espécie de saudade”, será urgente que passemos a ter mais respeito por nós próprios e que larguemos de vez o “maltrapilhismo” a que nos habituámos e que nunca nos trouxe nada de bom. Basta um pouco de organização e sobretudo de respeito por nós próprios. Se nós não tivermos respeito por nós próprios, como poderemos ter pelos outros e consequentemente, como poderemos querer que os outros o tenham por nós? Perguntar-me-ão como será possível querer em pouco tempo mudar coisas que nos estão tão arraigadas e eu respondo que, se “por toda a parte tomamos consciência da antiga cultura” que até os outros reconhecem que temos, então não será difícil alterar aspectos que de alguma forma nunca fizeram a nossa história, mas sim as nossas estórias. Quanto ao curto espaço de tempo, sempre vos digo que se alguém tivesse vaticinado que o ano de 1905 seria o Annus Mirabilis, porque a partir dele o Mundo mudaria e com ele a toda a forma de o pensar, ter-lhe-iam chamado louco e, no entanto foi isso mesmo que aconteceu. Não peço portanto, mais que um pequeno Annus Mirabilis, e à escala nacional. Seria uma mudança pequena mas de profundas repercussões no nosso presente e no nosso futuro. Portanto, também no futuro dos nossos filhos. E que melhor legado lhes poderíamos deixar? Todos temos o direito a ter respeito por nós próprios e o dever de o ter pelos outros. Só que o respeito pelos outros só pode existir se primeiro tivermos respeito por nós próprios. E é só isso que se pede: respeito por nós próprios! Se de alguma forma isso se conseguir, acredito que será seguramente o nosso Annus Mirabilis! Porque o respeito por nós próprios engendra a confiança em nós próprios e só com essa autoconfiança nos será possível alcançarmos as metas de desenvolvimento e bem-estar de que diariamente nos falam e a que temos direito. Se é verdade que “querer é poder”, deverá ser igualmente verdade que “não querer é não poder”. Façamos o pequeno esforço (cada um de nós) de deixar de ser maltrapilhos e sem consciência e transformemos o ano de 2005 no nosso Annus Mirabilis. Vão ver que vale a pena!
