Quando as águas estão agitadas...
Era minha intenção escrever sobre o momento político que se vive em Portugal, mas o facto é que chegou ao meu conhecimento uma informação que me parece digna de precedência. Escrever sobre as eleições ficará para mais tarde, mas muito ainda a horas delas. É que, embora já ocupem todos os espaços mediáticos, as eleições só produziram até agora “faits divers”, questões de “lana caprina” e com isso tentam entreter ou distrair o povo. Esperemos que ele não se distraia! E é precisamente nestas alturas que algumas das mais polémicas decisões são tomadas e, quando se dá por elas já é tarde! Então dizem-nos: “Nós informámos e não houve reacção!” Esses factos ou decisões nunca aparentam ser de grande dimensão, mas sim coisas de âmbito local ou restrito, para que os grandes holofotes dos média, televisões ou jornais, não os chamem para uma qualquer ribalta incómoda.
Não sei se foi por isso ou se foi por qualquer outra razão, soube-se agora (através do Semanário Expresso) que a Pousada da Juventude de Évora vai fechar. Já há algum tempo que a pousada não funciona, mas a razão que tinha vindo a ser dada era a necessidade de obras urgentes nas suas instalações. Agora, corre a notícia do seu encerramento definitivo. E corre também que para essas instalações (as antigas instalações do Hotel Planície), irá a Casa Pia de Évora, até agora sedeada no Convento de São Bento de Cástris. Finalmente, consta que o Convento de São Bento de Cástris será vendido a um grande grupo económico para lá se instalar uma unidade hoteleira de luxo. E está assim fechado o circulo que tudo parece explicar. Pode ser que assim não seja desta vez, mas o facto é que já estamos habituados a que tantas trocas e baldrocas tenham quase sempre como pano de fundo, a facilitação dos interesses dos grandes grupos em detrimento dos pequenos interesses ou de questões sociais. E assim se explicariam tantas mudanças… Évora perderá a sua pousada da juventude, passando a ser a única capital de distrito do continente a não dispor de um equipamento deste tipo. As pousadas de juventude são pontos de passagem e estadia de muitos jovens que, de Portugal e mesmo da Europa, fazem turismo de baixo custo, sendo esta a única forma de turismo que não lhes está economicamente vedada. Mas esses turistas não são imediatamente interessantes para os grandes hoteleiros: têm pouco dinheiro, compram pouco, e andam de comboio ou à boleia. E por vezes ainda cravam uns tostões nas ruas, em troca de malabarismos ou alguma canção. Mas será que não são importantes para a cidade nem para o país? Lembro-me de eu próprio muito ter andado assim por toda essa Europa. Hoje, tento revisitar os melhores e mais agradáveis sítios por que então passei. Esse é o interesse mediato das pousadas de juventude. O primeiro e imediato interesse é dar-mo-nos a conhecer a esses jovens (a nós, à cidade e à região). Disso colhem eles (e nós) os benefícios inerentes: alargam-se os seus horizontes culturais e permit-se o convívio entre jovens de inúmeras proveniências, esbatendo assim rivalidades nacionais e étnicas, tornando-nos parceiros de corpo inteiro uns dos outros. Em suma, todos nos enriquecemos um pouco. Mas isto não é, evidentemente, o objectivo nem o negócio dos hoteleiros. Nem, pelos vistos, o objectivo dos organismos sociais de tutela dos serviços das pousadas nem das casas pias.
Vejamos agora o que ganha cada uma das instituições envolvidas nestas trocas e baldrocas? Já vimos que os jovens perdem tudo. A Casa Pia consegue aproximar os seus alunos da cidade, o que poderá ser bom para a sua integração social. Mas perde condições objectivas: o antigo Hotel Planície nunca o poderá ser, por clara falta de espaço e de condições, um local onde se desenvolvam condignamente actividades julgadas fundamentais para recuperação de jovens em risco. O Convento de São Bento de Cástris não será o local mais bem apetrechado, mas poderia vir a ser se para isso houvesse vontade política. Agora, mesmo que venha a haver condições económicas, não haverá no Hotel Planície condições físicas para tal! Quantos alunos-residentes poderá comportar o hotel? Onde se colocarão as oficinas que hoje existem no convento? Como é possível dar educação (aulas, oficinas, convívios, quartos ou camaratas, etc.) num edifício concebido para hotel? Conclui-se portanto que também perde. A cidade vê mais um edifício patrimonial tornar-se privado ou vedado à grande maioria da população, o mesmo é dizer que, além de o comum dos mortais não o poder visitar, vê a sua função social anulada. E que função mais digna para um edifício de todos nós?
Mas tudo isso são minudências quando a vontade dos grandes grupos hoteleiros se levanta e o poder político age como seu executor privilegiado. De eu estiver errado, como gostava de estar, que me corrija quem de direito e aqui explique o que de facto se passa. Se não, corremos o risco de dentro de anos, se o tipo de turismo da moda a que hoje se quer dar resposta (e que se chama cultural) ceder lugar a outro turismo qualquer que não tenha a cultura (e Évora) como tema. Então, teremos muitos hotéis vazios (ou “deslocalizados”) e muitos cidadãos mal (ou pior) formados, porque hoje deixámos que se colocassem crianças em risco num local impróprio. Simultaneamente não demos hipótese a que os jovens e futuros turistas por cá pudessem sequer pernoitar e assim pensassem em cá voltar um dia! E todos nós ficamos um pouco mais pobres.
Isso não acontecerá, se a tanta troca e baldroca nos opusermos!

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