Os oitenta do Dr. Soares ou a essência das coisas…
O Dr. Mário Soares completou a semana passada oitenta anos! A celebração do seu aniversário deu-me o ensejo de reflectir sobre as virtudes da velhice e, por extensão (não tão extensa, é verdade), da maturidade. É bem certo que os meus pais também já ultrapassaram a fasquia dos oitenta (e de boa saúde mental e física) mas, por me estarem tão próximos, não tomei consciência do alcance do que isso realmente significa. O aniversário do Dr. Soares no entanto, proporcionou-me o afastamento necessário a esta reflexão. No imenso jantar, encontrei dezenas de amigos que, de uma forma ou de outra, com ele contactaram ao longo das suas vidas. Um deles disse-me: “Se há vinte e cinco anos me tivessem dito que eu iria estar num aniversário do Mário Soares, eu era capaz de ter respondido ‘Nem morto!’ e hoje aqui estou! E porque quero!”. Logo outro conviva se apressou a corroborar a frase com um aceno veemente de cabeça. Olhando a sala, acho que este seria também o caso de muitos outros convivas presentes. Lá se encontravam dezenas ou mesmo centenas de pessoas que, num momento ou noutro, publicamente se opuseram a Mário Soares, e muitos outros que ainda hoje politicamente se lhe opõem. Não era essa a questão ali. Quererá isto dizer que o jantar foi um inócuo encontro de amigos e conhecidos? Obviamente que não e tudo tinha naturalmente um forte cunho político. O que era, então? O quê ou quem terá mudado? Só Mário Soares? Não, porque os seus amigos de sempre estavam lá. Terão sido os que se lhe opunham? Também não, porque muitos ainda hoje se lhe opõem. Mas todos estavam lá! O que terá então mudado? Pessoalmente, acho que o que mudou, e se ganhou nestes vinte e cinco anos foram coisas como respeito, admiração e reconhecimento mútuos, por exemplo, sem abdicar dos princípios defendidos. E o que se perdeu foi a rigidez, a crispação e a agressividade desnecessária. E todos passámos por esse processo! Uns melhor que outros, é bem verdade… mas sempre diferentemente do que o que a hoje assistimos. Também nisso se diferencia a política hoje praticada, tão avessa a ideologias e princípios, agora substituídos por estratégias e gestões “por objectivos” supostamente eficazes mas casuísticas, porque não apoiadas em nenhum projecto de longo prazo. Se por um lado, no tempo em que era politicamente activo, Soares declarou que tinha “posto o socialismo na gaveta”, por outro reconheçamos que essa é uma questão arrumada e não vale a pena nos continuarmos a perguntar como teria sido se a gaveta não tivesse sido fechada. É um facto e é com ele que temos de lidar. Olhando para a história, compreendemos que o seu curso é raramente alterado por actos isolados, e que as coisas acontecem mais ou menos quando têm de acontecer. E que quem está na altura “em cena” é que tem que a interpretar. Igualmente, também nos poderíamos perguntar como estaria o Mundo se Karl Marx não tivesse existido, mas o facto é que se houvesse resposta a tal questão, esta não nos levaria a lado nenhum. Existiu e pronto! Sabemos hoje como as suas teorias, que durante decénios constituíram uma das traves-mestras do curso do mundo, foram liminarmente arredadas em escassos anos, da Rússia à Albânia, da China ao Chile. É no entanto legitimo afirmar que as profundas consequências do marxismo na evolução do Mundo ainda hoje não podem ser avaliadas. O tempo de uma vida é demasiado curto para inflectir visivelmente o curso da História, mas não para lançar sementes, que serão com o tempo multiplicadas e colhidas. São contudo a “verdura”, a “generosidade da juventude”, a “paixão por ideais” que provocam os aparentemente grandes movimentos que vêm a ter reflexos profundos e duradouros no curso da história da humanidade. E isso aconteceu em Portugal! Não tanto e tão drasticamente quanto na altura se acreditava (porque vivemos à superfície), mas muito mais duradoiramente (porque a vida tem profundidade). Cabe aqui citar uma frase de Baudelaire que me acompanha há muitos anos: “É mais fácil mudar a cidade que o coração dos homens”. Desta frase retiro que é mais fácil (e rápido) mudar coisas aparentemente grandes ou visíveis (fisicamente falando), que alterar substancialmente a forma de pensar e de agir da humanidade (ou pelo menos, de uma parte dela). Desses impulsos violentos, nunca se volta ao ponto zero, mas o facto é que as grandes evoluções são coisas lentas, morosas e pesadas. E a serenidade para entender isto só se atinge depois de “alguma vida”. Há que relativizar tudo. Será nesse ponto que está Mário Soares. Quem mudou, então? Ele ou nós? Eu diria “Todos nós, um pouco, mas inexoravelmente!” E, se nos tornámos todos mais flexíveis e compreensivos numas coisas, todos nos tornamos mais rigorosos e precisos noutras: é o retorno à essencialidade das coisas, donde partimos em crianças. É isso, em minha opinião que opera o milagre do entendimento e da cumplicidade entre avós e netos. Mas, como ainda agora escrevi, “nunca se volta ao ponto zero” e essa “pequena” diferença do ponto de partida faz-se pela reflexão de uma vida vivida. E é ela que de alguma forma constitui o avanço da Humanidade.
Não me admira assim que Mário Soares, Freitas do Amaral e muitos outros sejam justamente agora, na fase “pós-madura” da vida, “acusados” de serem simultânea mas contraditóriamente cada vez mais objecto de consenso e de se estarem a “esquerdizar”. Não é isso. Nem o contrário. É porque essa é, de facto, a essência das coisas!
Parabéns, Dr. Soares!

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