O Natal e o Novo Ano
Este é a última crónica que corre pela minha pena este ano… e por isso, não gostava que dela se soltassem notas de pessimismo. No entanto, tal parece-me ser inevitável: até aos últimos momentos do ano, o estado de ansiedade neste país é enorme. O desespero patente na corrida insã para cumprir os limites do défice deixa-nos a todos desconfortáveis. Primeiro era a venda ao desbarato de imóveis onde estavam departamentos estatais, depois já não era bem assim e era só uma cedência de exploração por alguns (muitos…) anos, passando os departamentos de estado, entretanto, a pagar renda. Isto é, um empréstimo a prazo! Finalmente (será?), é a disponibilização de fundos de pensões da Caixa Geral dos Depósitos. Confesso que não sei bem o que tal significa, mas creio que se está a ir às verbas descontadas pelos funcionários da Caixa para as suas próprias reformas, que passarão a ser incluídas no bolo das reformas da Função Pública, com eventual perda de regalias. Será isto? De qualquer forma, a atitude do Governo levou ao protesto das estruturas dos trabalhadores e, mais esclarecedoramente, ao protesto e à demissão de alguns dos principais gestores daquela imensa organização bancária. E isso só pode ser preocupante. Ao fim de três anos a vender património do Estado em cada Natal (até coisas estranhas como as dívidas ao fisco), começa a parecer pouco próprio culpar o PS pelo estado em que deixou o país, ele que nunca vendeu nada desta forma. Há que perguntar se o estado em que este governo deixa o país é em algum ponto melhor do que o estado em que o encontrou. E se a delapidação do património deu alguns frutos. Se os dirigentes fossem pessoalmente responsabilizados (em julgamento público com todas as garantias, claro) pelos danos e/ou benfeitorias causados ao país, creio que tudo seria diferente. Acho mesmo que muitos dos que até agora vimos nos sucessivos governos, não aceitariam integrá-los. Parece ser demasiado fácil dizer “Assumo a responsabilidade política do que fiz e decidi.” O que é ser-se politicamente responsável? Que significa isso? Na maioria das vezes, e por “mau comportamento” no governo, a “pena” é uma administraçãozita de uma instituição pública ou de uma qualquer entidade bancária. O contrário, exactamente, do que se diz às crianças sobre o Natal: “Se te portares bem, o Pai Natal traz-te a boneca!” ou “ Se tiveres boas notas, o Menino Jesus dá-te o carrinho!”. Aparentemente, a coisa passa-se assim: “Se Vossa Excelência fizer muita asneira, teremos que lhe arranjar uma administração qualquer…” E de responsabilidade política, estamos conversados!
Bem sei que a política nem sempre é assim, e também que em política não há amizades. A prova disso, deu-a o actual Primeiro-ministro, ao dizer que já lhe deram tantas facadas nas costas que não tem espaço para mais. E não estava a referir-se aos seus adversários, porque esses não lhe andam tão perto que lhe possam dar facadas, até porque além do mais teriam de passar pela sua espessa cortina de seguranças pessoais. Referia-se aos seus companheiros de partido. Então porque o esfaqueiam os seus companheiros? Depois da imagem do recém-nascido a ser pontapeado pelos irmãos, esta das facadas é igualmente pungente. Nunca ouvi nenhum político queixar-se tanto e em tão pouco tempo. Mas também nunca vi nenhum primeiro-ministro a ser tão amplamente criticado (apunhalado?). Mas embora ele tenha criticado (apunhalado?) a Dr.ª Manuela Ferreira Leite que, segundo os média, nem ao congresso pôde ir, a antiga ministra recusa-se a comentar o que dela dizem para “poupar o PSD”. Será isto ser amigo ou é mais uma punhalada disfarçada? Os tempos estão de tal maneira que já não se percebe nada.
Sei apenas que o número de desempregados aumentou, embora não o suficiente para que haja políticos desempregados. A propósito: Porque é que nunca se vêm políticos desempregados? Este deve ser mais um dos enigmas de Natal: eles têm sempre um emprego no sapatinho. E sei também que a produtividade diminuiu, que as exportações trazem menos dinheiro, que a gasolina está mais cara, que os impostos (ao contrário do que foi apregoado nas últimas eleições) não baixaram, que os salários não aumentaram (e até agora já perdemos o correspondente a um ordenado por ano!) e que ninguém está satisfeito: nem os trabalhadores, nem os empresários, nem sequer o Presidente da República! Aparentemente, nem mesmo o primeiro-ministro e os seus ministros o estão. Decididamente, será preciso mudar qualquer coisa, para que -ao menos- alguém esteja satisfeito. E já agora, que seja a maioria dos portugueses, isto é, todos nós!
Diz-se que o Fim do Ano é a altura para fazer os grandes balanços. Este Fim de Ano parece-me bastante propício a isso. Acho que primeiro nos deveremos perguntar o que poderemos nós próprios fazer, por nós e pelo país. Depois, o que queremos que quem nos governará faça. E finalmente pensar se o que nos prometem é possível ser levado a cabo. E é aqui que está a questão difícil: como acreditar (mais uma vez) no que nos vão dizer os que se propõem governar-nos? Acho que já ninguém acredita no Pai Natal, e muito poucos nos partidos! Talvez desta vez a promessa de continuação de tempos difíceis (a única verdade que sabemos vir a acontecer) seja a mais credível. E que alguém nos proponha um meio de pagar as contas “da mercearia” sem ter de vender as “pratas da família”. É que um dia destes já não há pratas (nem “pechisbeques”, como lhes chamou a Dr.ª Manuela Ferreira Leite). Isto é, que o novo ano seja o ponto de partida para dias difíceis, mas que seja também o ponto de partida para a reconstrução de um país que nos orgulhemos de legar aos nossos filhos, coisa que hoje ele não é.
Bom Ano de 2005!

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