Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2004-11-24

O Catitinha e o Dia Mundial da Memória

Quando eu era miúdo, habituei-me a ver e ouvir, sempre que ia à praia, um velho que dava pelo nome de Catitinha. O Catitinha percorria as praias do país de norte a sul. Com um apito, convocava todas as crianças que estavam na praia e, quando à sua volta elas se juntavam, começava a contar histórias que só ele sabia e que todos gostávamos de ouvir. Para vos ser franco, já não consigo lembrar-me de nenhuma das histórias do Catitinha, mas sei que ficava, tal como os outros, maravilhado a ouvi-las. Quando aquele velho de longas barbas e capote conseguia finalmente ficar com a criançada suspensa da sua voz, começava a contar histórias sobre os perigos do mar. Recordava-nos que o mar era perigoso e podia ser traiçoeiro e, na sua bonomia, prevenia-nos contra a demasiada afoiteza e a exagerada confiança com que muitos “tratavam” o mar. Rezava a lenda que ele tinha perdido uma filha ainda criança nas dobras das ondas e que, desde então, se dedicava a prevenir que a mesma desgraça acontecesse aos mais pequenos. Nunca o vi pedir mas também nunca o vi com fome. Pode ser que tudo isso tenha acontecido mas, creio bem que todos lhe tapavam a fome e o frio, porque todos (mesmo mais velhos) já antes o tinham ouvido. O Catitinha era uma instituição, um vulto de avô de todos nós, percorrendo incessantemente as praias do Minho ao Algarve (isso mesmo, ao longo de toda a costa portuguesa há quem se lembre dele) para prevenir desgraças só com ternura e bondade. Ninguém lhe pagava nem ninguém lhe agradecia. Hoje, todos nós temos para com ele uma profunda dívida de gratidão, e eu tenho para mim que o melhor agradecimento era, para ele, o sorriso dos nossos olhos de crianças. E que melhor agradecimento que esse, ele que no mar tinha perdido a sua filha da nossa idade? O Catitinha ensinou-nos muitas coisas, nessa altura sem nome definido, mas a que hoje chamo amor ao próximo, solidariedade, prevenção, segurança, respeito e altruísmo.
Este último domingo, celebrou-se em Évora o Dia Mundial em Memória das Vitimas das Estradas. Foi um evento tocante, que me fez vibrar a mim e a muitas pessoas que quiseram passar pelas imediações da Praça do Giraldo. Até os estudantes de algumas escolas de Évora foram convocados e colaboraram de corpo inteiro. Parar para reflectir na forma como nos comportamos é uma coisa para que nem sempre disponibilizamos tempo. É sobretudo para isso, mais que para qualquer outra coisa, que estas celebrações servem. Que o problema existe, toda a gente sabe. Mas o facto é que todos os modelos de comportamento que nos são transmitidos (pela publicidade, pela televisão, pelos jornais) são contrários à prevenção: o que interessa é ser-se rápido e chegar antes do outro. O que é valorizado é ser-se o primeiro e enquanto tal, o melhor. Não importa como nem à custa de quê. E, uma vez essa atitude eleita como regra, já corremos mesmo sem saber porquê ou para quê, havendo ou não razão para isso. Ao prazer de um passeio desfrutando uma “estrada panorâmica” (como antigamente vinham assinaladas nos mapas) contrapõe-se agora uma visita a um sítio, longínquo mas exótico, rapidamente atingível por auto-estrada. Mais uma vez a corrida! Da parte dos peões, é a inconsciência suicida de à noite se transformarem em seres invisíveis, caminhando ao longo de estreitas e sinuosas estradas, sem faixas próprias para eles. Pior ainda os ciclistas (quantas vezes crianças), que a qualquer momento, dia ou noite se atravessam numa estrada, sem luzes, sem reflectores, sem consciência do perigo. Percebe-se que nunca os pais tomaram consciência dos riscos que isso envolve e ainda menos os alertaram para o perigo de morte que correm. Nem os pais, nem as autoridades responsáveis pela segurança dos cidadãos. A segurança não é só uma questão de qualidade das estradas e das ruas: é também um problema de consciência e de sinalização! Quantas obras estão neste momento em execução (só na Cidade de Évora, para não ir mais longe) e que têm acautelado um percurso seguro para peões? E quantas à noite têm iluminação de aviso? Em Évora, nenhuma! Nenhuma das obras que neste momento se executam nas vias públicas da cidade que albergou o Dia da Memória, tem luzes de aviso ou sinalização conveniente! É tudo uma questão de consciência de quem é directamente responsável por essas obras. Como de consciência foram as manifestações a que assistimos na Praça do Giraldo.
E de súbito, percebi que todos os que promoveram estas manifestações e estas memórias eram, de certa forma, digníssimos sucessores do Catitinha. Tal como a ele, nada mais os move que o altruísmo, porque os seus entes mais queridos se foram na sinistra rapina dos novos mares que são as estradas portuguesas. Estou em crer que, se hoje existisse, o Catitinha se dedicaria também a contar histórias nos parques infantis e em todos os locais onde há crianças, para as despertar para os imensos perigos que cada vez mais espreitam em cada esquina e em cada bocado de alcatrão. Porque ele foi o primeiro português que conseguiu dar à prevenção de acidentes, um método e um rosto.
Tenho o sonho de promover a figura do Catitinha e acho que, nos tempos que vão correndo, nada se lhe ajustaria melhor que uma fundação que levasse o seu nome e se dedicasse à divulgação entre crianças, de questões de prevenção e segurança nas praias e nas estradas. Acho que ele não se importaria que se incluíssem as estradas porque, no tempo dele, eram as praias que matavam mais gente. As estradas de hoje são as praias de ontem e isso ele iria entender.
Ao antigo e aos novos Catitinhas, a minha mais profunda, sincera e sentida homenagem e agradecimento.

8 Comments:

Anonymous M.A. said...

O Catitinha tinha também uma coisa que o irritava bastante. Era ver, como era costume nas praias antigamente, comer camarões que as vareiras vinham vender aos veraneantes sentados nos toldos. Dizia-se que a filha teria morrido com tétano devido a ter pisado justamente uma cabeça de camarão deixada na areia.

12:56 da manhã  
Blogger fly said...

Recordo perfeitamente o Catitinha, tenho 56 anos morava em Carcavelos e lembro-me do personagen inclusivé tenho uma foto de um grupo enorme de crianças, onde estou que foi tirada na praia de Carcavelos *~ em 1959/60

1:36 da tarde  
Anonymous José Carlos Almeida said...

Eu também conheci o Catitinha. Não na praia, mas em minha casa, num dia em que a minha mãe o encontrou na rua e o convidou para almoçar. Em criança, ela também se deliciara na praia com as histórias do Catitinha. Mas lembro-me da minha mãe dizer que, com o seu apito, o Catitinha também protegia as crianças nas ruas sempre que com elas se cruzava, fazendo parar os carros para que elas pudessem atravessar a estrada em segurança. Portanto essa sua ideia de fundação em nome do Catitinha faria até muito sentido. De facto, é uma pena que ninguém mais se lembre de lhe prestar uma tão merecida homenagem.

8:57 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Nunca esqueci o Catitinha! O Catitinha era o grande amigo das crianças! Quantas vezes o vi a mandar parar os carros para as crianças passarem e dizer: "CUIDADO COM AS CRIANÇAS"!
Sim uma homenagem ao Catitinha, seria um ato de grande justiça. Eu dou todo o meu apoio a essa homenagem! Penso que deveria ser na Figueira da Foz, dado que fica no CENTRO e em que ele mais tempo permanecia. Obrigada, a quem tomar a iniciativa!

6:07 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

O comentário acima é de Maria Isabel Guerra Loureiro.

6:09 da tarde  
Anonymous António João Monteiro said...

António João Monteiro.

Recordo-me perfeitamente daquele Senhor todo de preto e farta cabeleira branca, tocando o inconfundível apito que chamava as crianças,na praia e a todas cumprimentava com um aperto de mão.
Constou na altura (anos 40)lhe falecera um familiar ainda criança o que o levou a contactar o maior número de crianças possível e assim ter uma compensação!!!! Se alguém tiver uma foto do "Catitinha seria interessante que os nossos netos meninos de hoje conhecessem a inconfundível figura!



5:31 da tarde  
Anonymous Fernando Furtado Coelho said...

Também me lembro muito bem do Catitinha, com as suas longas barbas, sempre a mandar parar o trânsito para as crianças passarem. Tabém nas praias ficava sempre rodeado de crianças a ouvir as suas histórias. A última vez que o vi foi na Av da República, em Lisboa, por volta do ano de 1950.

8:32 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

E alguém tem uma foto do Catitinha?

5:48 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home