A “verdade” em televisão
Aqui há dias, em deambulação televisiva (a que se decidiu americanamente chamar zapping) tropecei num programa de que já tinha ouvido falar, e que se chama “Quinta das Celebridades”. Fiquei banzado! Parecia que se estava no meio de uma reportagem em que uma série de gente vestida para uma noite de gala tivesse tido uma avaria no carro e fosse obrigada a pernoitar numa unidade de turismo rural. Ou então que se estava no meio de uma anedota, estridentemente contada pela Júlia Pinheiro! Mas não… tratava-se de um programa de televisão, embora eu ainda não tenha conseguido definir de que tipo. Que é um drama, é. Que é aparentemente realidade também, mas só aparentemente. Porque na vida das “celebridades” tudo o que se vê é, regra geral, fabricado. A realidade normalmente não aparece. Estaremos portanto perante um drama aparente! Disseram-me que “aquilo” é um concurso e que também haverá expulsões, como no finado e popular “Big Brother”, mas isso não é relevante. Limitei-me a apreciar o que disse e fez uma série de gente supostamente conhecida pela simples razão de ter sido promovida a “celebridade”. E celebridades, neste país, são todos os que, sem razão relevante, tiveram em algum momento as câmaras fotográficas ou de televisão “em cima”. Excluem-se assim bombeiros narrando fogos, cientistas falando das suas descobertas ou quaisquer pessoas relatando algo que tenha interesse, a não ser que tenham ido a uma festa televisionada. E essa será a única razão por que poderão ser promovidos a celebridades. Divisei por lá um presidente de Câmara ultimamente celebrizado por ter invadido um campo de futebol e de seguida ter andado aos chutos ao material desportivo desse mesmo clube, a encher baldes de água. Vi também uma personagem (aparentemente andrógina) celebrizada por ter sido há tempos apanhada com uma copiosa quantidade de jóias nas sua bagagem à passagem pela Alfandega de Lisboa, a regar com esses baldes, transportados por um latagão brasileiro que acho ter-se celebrizado por fazer telenovelas. Reconheci ainda uma celebrizada e antiga companheira do actual primeiro-ministro a capinar. Entre os outros há algumas caras que já devo ter topado nalguma daquelas revistas que se encontram nos barbeiros ou nas salas de espera dos consultórios, mas como são locais a que vou pouco, a minha ignorância é grande. Porque então escolher estas “celebridades”? Pelo que vi, parece-me que se pretende provar que as “celebridades” podem ser tão ou mais ridículas que nós, cidadãos comuns. E que para se ser celebridade não é seguramente necessário ser-se um modelo na sua vida privada. E que até a forma como utilizam a língua portuguesa é por vezes lamentável. Recreativo? Educativo? Fica-me a dúvida.
Há dias vi também na televisão um ministro a vociferar contra um comentador televisivo, acusando-o de mentiras e falsidades que seriam motivadas por ódio ao primeiro-ministro. Dias depois, esse comentador estava fora da estação. Sempre julguei que uma acusação de “mentiras e falsidades” vinda de um ministro fosse o ponto de partida para inevitavelmente se mover um processo judicial em nome do esclarecimento cabal da verdade a que todos temos direito, mas aparentemente, não! Sobre a falsidade do que terá dito, fica-me a dúvida. Falou-se depois na necessidade “do contraditório” mas o que me parece é que esse comentador, o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, é do mesmo partido do ministro que contra ele se abespinhou. Será isto a célebre discussão política aberta dentro deste partido? Então, o “contraditório” é entre quem? Ou de quem tem de vir? Dos partidos de oposição ao governo? Dos partidos que apoiam o governo? Do próprio governo? Mas esse tem todos os dias para contraditar os comentadores! Até (eu diria, sobretudo) pela prática. Então, mais uma vez, contraditar como? Fica-me a dúvida. Mas lá falta de contradição não há! Se os ministros usam esse princípio relativamente ao Primeiro-ministro, dizendo hoje (aparentemente) o contrário do que ele disse ontem, ou a vice-versa, ou se este governo, indigitado porque seria a sequência do anterior, contradiz a austeridade que o outro julgava essencial (até no que se refere às pontes dos feriados), acho que há contradição suficiente.
Tudo isto é de facto contraditório, e tudo parecem ser jogos televisivos. Tão contraditório me parece ser ver uma senhora ou um senhor vestidos “para matar” a capinar, como assistir às declarações ministeriais. A importância é que é diferente. Mas, de facto, a televisão tudo homogeneíza e, a certa altura, temos tendência para dar idêntico valor a uns e outros. E é aí que as coisas passam a ser preocupantes!
Nota: A semana passada tive honras de uma réplica à minha crónica 172 do senhor Carlos do Carmo Carapinha (C do CC), que não tenho o prazer de conhecer. Fiquei satisfeito de, só ao fim de 172 crónicas ter discordado de mim o suficiente para se ter dado ao trabalho de o expressar! Fica-me a ideia de C do CC não ter entendido o que eu queria dizer. Não está contudo sozinho porque também eu não consegui entender o que de mim pretendia C do CC, embora tenha relido o seu texto com cuidado. Estamos quites.

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