Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

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Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2004-10-06

A discussão do futuro e o Congresso do PS

Terminou no domingo o Congresso do Partido Socialista. Após um debate de várias semanas entre os três candidatos a Secretário-geral desse partido, as eleições deram a vitória folgada a José Sócrates. Não me compete a mim, cidadão sem partido, criticar ou sequer tomar posição sobre o novo Secretário-geral. Compete-me antes saudá-lo e congratular-me com o facto de um partido essencial ao funcionamento democrático do meu país ter começado a sair de um período tão conturbado como o que o Partido Socialista viveu. Neste último fim-de-semana, consagrou-se em Congresso o novo programa do PS. A vida interna dos partidos só me interessa na medida em que se trate de partidos que, de uma forma ou de outra, interferem com a minha vida e com a vida de todos os portugueses. Assiste-me portanto, o direito a saber qual a via escolhida pelo PS para o seu e previsivelmente nosso futuro próximo. Ainda não tive acesso, como quase todos, a essas linhas directrizes, mas entendo que poderei desde já tecer alguns comentários. Entendo que o inovador processo de escolha do secretário-geral (por escrutínio directo e secreto dos militantes) deverá ser analisado (e seguido) por outros partidos. É um processo de maior transparência, que torna mais difíceis as jogadas de aparelho. Mais ainda, foi precedido de um interessante debate aberto que de alguma forma esclareceu todos -militantes e não-militantes- sobre quem é e a que se compromete o agora Secretário-geral do Partido Socialista. Uma vez que cada candidato tinha uma visão diferente sobre o posicionamento do PS no xadrez político do país, ficámos com pistas sobre o que poderá vir a ser a vida política portuguesa. É certo que, como sempre, haverá um programa político antes das eleições mas, ponhamos a mão na consciência… Quantos de nós lemos ou leremos esses programas? E quantos de nós votámos porque concordancia com esses programas? Mais ainda, quantos de nós interpelámos ou questionámos os líderes dos partidos em que votámos, por incumprimento desses mesmos programas? Um encolher desalentado dos ombros e um “No poleiro são todos iguais!”, resume o comentário e a participação cívica e política do cidadão comum. Quase nula, portanto. E cidadãos comuns, somos todos nós. É por isso que, se este debate foi rico, poderá sê-lo-á ainda mais no futuro, porque a vida democrática não se pode resumir a um debate entre candidatos de um partido. Terá que se estender a todos os partidos. E a todos os cidadãos sem partido. Porque todos somos candidatos a uma vida melhor. E enquanto tal, é isso que teremos de discutir. Não esqueço que, na ressaca da “overdose” política do 25 de Abril, muitos se retiraram ou demitiram da participação cívica e política. O próprio Mário Soares, decretando a entrada na gaveta do socialismo, contribuiu fortemente para o fim da discussão das ideias políticas pelo PS e pelo público em geral! O PCP, que se reivindica do centralismo democrático, não se abriu nunca à discussão da sociedade, aparecendo sempre com as suas posições já tomadas, arredando (pelo menos) os não-filiados da discussão. O Bloco de Esquerda, dada a sua pouca idade e dimensão, não pode (ainda) ser muito criticado. Os partidos à direita, não têm, por definição, a discussão política como método. E assim fomos entrando na era do pragmatismo, na era em que se discutia a qualidade da gestão (do governo, da autarquia, do clube) e não o seu conteúdo social e político (qual o rumo social do governo, da autarquia, do clube). Em suma, a gestão era um fim, e não um meio. E ninguém sabia ou discutia para onde esses governos (ou vereações, ou direcções clubistas) iam ou diziam que queriam ir. E depois, já nem isso! A pobreza da discussão chegou à estrita discussão do “Relatório e Contas” dessas instituições. Só como imagem, chegamos à discussão do tamanho do défice! E é urgente mudar tal estado de coisas. É por isso que creio ser cada vez mais importante que os políticos discutam e se exponham politicamente. E sejam mais do que (eventualmente bem pagos) gestores públicos. Ou seja, que sejam Políticos com “P” grande. É que a discussão tem isso de bom… quanto mais se exercita, mais se quer exercitar. E todos nós temos uma capacidade de discussão que se tem esvaziado no futebol, nos sensacionalismos que nos inventam e noutras trivialidades. É essencial que nós passemos a discutir e votar em políticas e em projectos da vida que queremos para nós e para a geração que aí está a chegar. E essa geração que hoje se prepara para vir a tomar o poder, praticamente nunca discutiu. Essa geração, em minha opinião, não precisa que lhe encerrem as discotecas administrativamente (como agora pretende o reitor da Universidade Católica, para que estudem melhor) mas que lhe criem fóruns de discussão, para definir o que quer e como o quererá. A juventude precisa de exercitar os intelectos em locais informais. E precisa de sentir liberdade intelectual nessa discussão. Se isso acontecer, todos teremos a ganhar e (pode o Sr. Reitor ficar tranquilo que) a juventude aprenderá usar como deve toda a cidade (incluindo as discotecas) e toda a sociedade (incluindo o governo). Se tal não acontecer, e a discussão persistir não existir ou em se processar exclusivamente dentro dos partidos, continuaremos com esta vida sensaborona, cinzenta e não participativa que hoje temos, que de republicana só tem o presidente. Então, não duvido que as discotecas ainda serão a melhor panaceia.
(Que bom que é poder gritar sem medo “Viva o Cinco de Outubro!)