Os velhos Emídios Guerreiros deste país
Emídio Guerreiro completou 105 anos há poucos dias! Com uma aguda consciência da sociedade em que vive e uma assinalável vivacidade de espírito. Parabéns, saúde e longa vida, é o que se lhe deseja, para que nos sirva de exemplo e nos continue a provar que a vida vale a pena ser vivida a corpo inteiro! Emídio Guerreiro é o exemplo de um ser humano completo, íntegro e coerente. A sua vida daria tanto um filme de aventuras como um manual ético e político. Mas há algo que me fascina ainda mais na idade de Emídio Guerreiro: é saber do insubstituível valor do tempo no amadurecimento intelectual do ser humano, e tomar consciência de que ele já é maduro há mais tempo que muitos tiveram de vida. Em termos corriqueiros, é pensar que se “a velhice é um posto”, já não há posto para ele! E a velhice é um posto porque há coisas que só se aprendem com o tempo. E essas coisas são mesmo as mais importantes. Pode saber-se muito ou ser-se muito vivido, mas não se ter sapiência. Essa sapiência, esse “wisdom” (que em inglês tem o sentido de sapiência e bom senso), essa “sagesse” (que em francês tanto quer dizer sapiência como tranquilidade) só se adquire com o tempo. É com a idade que vem o bom senso, a tranquilidade, a essencia das coisas. Diz-se que as crianças são puras e é verdade, mas são puras porque ainda são ingénuas. Agora os velhos são (outra vez) puros porque de tudo o que viram e viveram retiveram a essencialidade, a pureza das coisas. É portanto uma essencialidade consciente e elaborada, mas que tem o condão de ser simples. Porque simples são as coisas essenciais. E os seus juízos têm a particularidade e a liberdade de já não os envolverem: por muito que ainda vivam, já não serão eles dirigentes, decisores ou beneficiários directos. É por isso que na sua maioria, os velhos são tidos como inconvenientes, irresponsáveis e “fora da realidade”. É evidente que a distanciação à realidade pode levá-los a trocar Euros com Escudos, achar caro que é barato (ou o contrário) e miudezas assim, mas nunca os vi confundir guerra com paz, bem com mal, liberdade com opressão ou outros conceitos importantes. O tempo é de facto o grande decantador da vida, que vivemos vertiginosamente, sofregamente, apaixonadamente, sem provavelmente a amarmos. Porque só se pode amar o que se conhece e a maioria de nós não se detem um segundo para a observar, a saborear, para a conhecer. E assim passamos a maior parte da vida sem a ver. Quase sem viver. É por isso que ouvir falar um velho é sempre uma experiência exaltante de vida, e nunca tempo perdido. É por isso que falar com um velho é sempre tempo ganho. Assim se percebe que as crianças, quanto mais pequenas, mais agarradas são aos velhos. É que eles sabem transmitir-lhes a essencialidade das coisas da forma simples mas profunda que só a experiência pode dar. De quem nada tem a perder para quem tudo tem a ganhar.
É por isso que muitas vezes me questiono sobre se a democracia é o mais perfeito e universal dos sistemas. Na Guiné-Bissau, por exemplo, há tabancas (aldeias) que são geridas por um conselho de “homi grandi” ou homens velhos, a correspondente africana dos nossos antigos “homens bons”. É um conceito que acho interessante mas que choca com o de democracia. Agora que as mulheres já votam (em quase todo o mundo), não seria de se repensar o peso do voto? Por exemplo, aumentar o “peso” do voto com a idade. Ou ouvir obrigatoriamente um conselho de anciãos antes de se tomarem grandes decisões. Ou outra coisa qualquer que nos permitisse levar em consideração a opinião de quem já tudo viu e nada tem a perder ou a ganhar. Talvez houvesse menos guerras, menos fome, menos miséria. E talvez os nosso velhos, porque novamente úteis como só eles podem ser, vivessem mais felizes (e, quem sabe, mais tempo). Porque hoje, só poucos têm o privilégio de Emídio Guerreiro, de serem ouvidos e portanto se sentirem justamente úteis. É por isso que saúdo Emídio Guerreiro e nele, todos os velhos deste país!

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