Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

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Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2004-09-15

A dependência do Petróleo

O preço do petróleo tem sido notícia constante, nos últimos tempos. Sobe e desce quase diariamente, em função da estabilidade política nas regiões que o produzem. Com ele, sobem e descem a gasolina e o gasóleo. Mas a cada descida sucedem-se duas ou três subidas que arrastam mais cedo ou mais tarde os preços de quase tudo: transportes por terra, mas e ar, produtos industriais, produtos agrícolas e de uma forma geral, todos os bens. É impressionante a absoluta dependência que temos do petróleo. Mesmo energias que poderiam com vantagem ser produzidas por outros meios não poluentes, nacionais e gratuitos (geradores eólicos, barragens hidroeléctricas, painéis fotovoltaicos, etc.), repousam no petróleo que nunca produzimos nem viremos a produzir. Logo, quem controlar o petróleo controla quem dele depende! Torna-se assim mais claro entender o que se tem passado no Mundo. Entende-se por exemplo que, sendo o Afeganistão um local fundamental no acesso a importantes recursos petrolíferos e de gás natural (do Quirguístão, do Turquemenistão do Uzebequistão e de outras repúblicas), a administração Bush se tenha decidido pelo ataque ao sinistro regime do Afeganistão e não ao não menos sinistro regime da Coreia do Norte. E que, sendo o (outro) grande objectivo capturar Osama Bin Laden, essa luta tenha esmorecido e deliberadamente sido subalternizada. Pois se o acesso fácil ao petróleo foi atingido! E que, tendo as Torres Gémeas de Nova Iorque sido atacadas por grupo de terroristas de nacionalidade saudita, tenha sido o Iraque o alvo escolhido para descarregar a honra ferida da “Grande América” e “implantar uma democracia” em nome do combate a Bin Laden e seus sequazes. Mais, segundo nos conta Michael Moore, dos cerca de 120 sauditas que no 11de Setembro tiveram autorização de sair dos Estados Unidos sem sequer serem interrogados, contavam-se 28 da família directa do próprio Bin Laden, parceiros comerciais de longa data do Presidente Bush! Ironia do destino (ou talvez não), o mesmo país que se propõe implantar a democracia no Iraque, foi o que conseguiu a democrática proeza de eleger o seu actual Presidente com menos votos que o candidato derrotado Al Gore! Mas o Iraque é um imenso lençol de petróleo e lá estão das maiores reservas do mundo! E daí é que não há que fugir! Em particular sabendo-se oficialmente agora como sempre se soube (só acreditou no contrário quem quis) que as armas de destruição maciça (lembram-se?) eram pouco mais que uma balela. Não quero com isto branquear o regime assassino de Saddam Hussein, mas não acredito nas lágrimas de crocodilo da administração americana! Que teria muito que fazer se decidisse livrar o mundo de todos os ditadores! Contraditoriamente, recordo que em 1973, precisamente a 11 de Setembro, Richard Nixon (também republicano) optou por sacrificar o regime democraticamente eleito de Salvador Allende ao ditador Augusto Pinochet! E em nome de quê? Dos interesses americanos no Chile (na altura, os nitratos), não dos interesses dos próprios chilenos. Nada me move contra o povo americano, mas acredito que as sucessivas administrações defendem interesses muito específicos, que incidentalmente podem coincidir com os do povo americano. Quando não coincidem, é o povo (até o americano) o sacrificado. Provas? Veja-se quantos filhos de dignitários americanos (congressistas, senadores, governadores etc.) já morreram no Iraque. Ou em qualquer outra das guerras anteriores. Mas voltemos ao petróleo… É evidente que quem depender do petróleo, depende de quem o controla e vende. E quanto maior for a dependência do petróleo, maior será a dependência de quem o distribui, comercializa e controla. E Portugal depende em mais de 80 % do petróleo para a sua produção de energia! Quer isto dizer que a cada pequena subida do preço do petróleo, corresponderá uma subida na inflação portuguesa e uma perda de competitividade em relação aos países que dele dependem em menor percentagem (e que são, por exemplo, todos os países europeus).
Agora, levantam-se dois outros grandes “problemas”: a vertiginosa evolução do consumo na Índia e na China, que só por si representam mais de um terço de toda a população mundial, que até agora quase não consumia petróleo! Só para dizer que, sem grandes análises, com a entrada destes dois parceiros como compradores, o preço do petróleo não mais terá tendência para descer! E, ou Portugal começa urgentemente a recorrer a outras fontes energéticas, ou provavelmente não terá viabilidade como país independente. Não que perca a sua independência formal, mas que passe a ter todas as decisões a si referentes, tomadas no exterior (no mesmo sentido em que o próprio Iraque não é um país independente). Compete-nos só a nós, portugueses, contribuintes, votantes, cidadãos, exigir que quem nos governa se debruce urgentemente sobre esta questão. E a resolva com o concurso de todos. de outro modo, é bem provável que tal não venha nunca a acontecer.