Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2004-08-04

A “silly season”…

Chegamos mais uma vez ao mês oficial do calor. Grande parte de Évora vai a banhos para Armação de Pêra e outros “resorts” (como agora se chama aos antigos empreendimentos turísticos) algarvios, e fica quase vazia. É a aberturas oficial da “Silly Season” (ou “estação parva”, em tradução livre), em que quase nada se passa de relevante, excepção feita aos dramáticos fogos florestais e ao denodado esforço dos bombeiros para que pouco se perca. A actividade está reduzida ao mínimo, como se o país fosse um enorme lagarto ao sol. Poderá este ano ser diferente, pois o governo, de tão fresco, ainda não deve ter direito a férias. Mas nunca se sabe! Quem trabalhou todo o ano, é que tem direito a elas, mesmo que não tenha dinheiro para mais que se fechar em casa e tentar esquecer-se o mundo. É por isso que resolvi aligeirar esta croniqueta, e dar-lhe um tom um pouco mais jovial. Decidi recorrer por isso ao livro “Pif-Paf” que um amigo em boa hora me ofereceu, do humorista brasileiro Millôr Fernandes. São frases retiradas ao acaso, mas que as mais das vezes, sem grande esforço, poderemos associar a eventos e situações de todos os dias e de todas as épocas. Assim, onde quer que passe as suas férias, delicie-se com um pouco do humor inteligente e mordaz do Millôr que, com a devida vénia, aqui cito*:

MINISTÉRIO DAS PERGUNTAS CRETINAS
Bicho-carpinteiro faz mobília moderna?
Pode-se passar noites em claro mesmo quando falta a luz?
Um juiz que recebe dinheiro dosdois lados é um sujeito imparcial?
A mulher do actor de teatro, quando ele chega tarde em casa, faz uma cena?
E a mulher do actor é um espectáculo?
Quem mata a sede vai preso?
Um músico pode ser preso por emitir notas falsas?
O vinho da Madeira é envernizado?
Uma galinha tem pena da outra?

PEQUENAS DEFINIÇÕES À FALTA DE MAIORES
Chama-se de antropófago um sujeito que chega no restaurante e pede o garçon.
Psicanalista é uma espécie de mágico que tira cartolas de dentro dos coelhos.
Chama-se défice isso que uma pessoa tem quando tem menos do quando não tinha coisa nenhuma.
Democracia é um sistema em que as autoridades não se importam com que o que você diz, desde que tenham os meios de impedir que você o faça.
A Universidade é um local onde a ignorância é levada a suas extremas consequências.
O pobre trabalha para comer. O rico trabalha para comer fora.
Círculo é uma linha que resolve ir dar uma volta.
Um planejador económico é um sujeito que não pode revolver um problema, mas organiza bem a confusão.
Chama-se entrevista política ao acto de falar naquilo que se devia estar fazendo.

PÍLULAS
O dinheiro não é só facilmente dobrável, como dobra facilmente qualquer um.
Cuidado, amigo: até um grande homem é capaz de um gesto de grandeza.
Os clássicos mudam muito de opinião para agradar aos que os interpretam.
Meus princípios são rígidos e inalteráveis. Agora, eu mesmo, já não sou tanto.
Toda uma biblioteca de Direito, apenas para melhorar quase nada os dez mandamentos.

… e pronto! Fiquemo-nos por aqui. Não esquecendo nunca que, como também diz Millôr, “A gente só morre uma vez. Mas é para sempre.”
Boas férias!

* “Pif-Paf”, de Millôr Fernandes, O Independente, Lisboa, 2004