O meu S. Luís Rei de França
Crónica 166
Nasci no norte de Portugal, numa pequena aldeia do Distrito de Aveiro. Era uma zona pobre, em que as pessoas cultivavam o campo e viviam disso. Era uma vida dura feita a pé descalço ou de tamancos, em que as únicas ajudas visíveis eram as juntas de bois que tanto puxavam o arado como carregavam os produtos da terra. Ou ainda, giravam paciente e infindavelmente à volta das pesadas noras dos poços, para que os campos fossem regados. E ainda iam, chiando as pesadas rodas dos carros, aos pinhais carregar enormes quantidades de mato, caruma, galhos, pinhas e pequenos troncos que se utilizavam quer nas “camas dos animais, quer nos fornos de pão e nas lareiras invernosas. Era uma vida “remediada”, sempre com o credo na boca não fosse um ano mais ingrato deitar a perder muito do pouco que tinham. Os produtos excedentários eram vendidos nas feiras próximas, trabalho de mulheres, canastras à cabeça, pelos fermentos para o pão, pelo sal para a ceia, pelo açúcar do primeiro almoço ou para algum tecido de roupa domingueira, que haveria de durar anos e ser “virado” de uns para outros. As alegrias eram escassas e só a grande festa da aldeia galvanizava tudo e todos. Era o grande arraial e o dia de folgar a sério! Havia festões, cruzeiros, foguetes e bailarico. E até petiscos e carnes várias e vinho, mais até que o necessário. Mas o ponto alto era a procissão, que saía da capela e percorria toda a freguesia no último dia de Agosto. A banda de música encerrava o cortejo oficial, que abria com o pálio que resguardava o senhor prior, seguido do garboso S. Luís Rei de França, padroeiro da aldeia, bem de pé no seu andor. Consta que, a caminho das Cruzadas, por ali terá pernoitado tão distinta personagem, marcando assim com a sua celebrada santidade, tão remoto lugar. E a aldeia retribuía-lhe, anualmente lhe encaixando no punho fechado sobre a multidão, o primeiro cacho de uvas maduras de que havia notícia. E esse cacho de uvas, exaltadamente procurado por toda a aldeia, prenunciava os tempos um pouco mais leves, ou pelo menos mais joviais, das colheitas, das vindimas e das desfolhadas e ainda da fundamental matança do porco. Mas veio a guerra ”do ultramar”, nessas tão remotas quanto africanas colónias, fugazmente entrevistas pelos mais afortunados nalguma folha do livro de leitura escolar. “Coisas dos livros”. De resto, poucos tinham tido a coragem de as demandar, preferindo-se os promissores brasis ou as refulgentes américas de onde sempre se voltava melhor. E a pobreza aumentou ao mesmo ritmo que os braços diminuíam, absorvidos por essa incompreensível guerra “dos de Lisboa”. Ou então, emigrando de moto próprio e fugindo “a salto” à miséria crescente da guerra e das suas consequências. E “a salto”, sem passaporte nem visto, só se vai até à França, à Alemanha ou ao Luxemburgo. E muitos campos entraram em pousio forçado. As mulheres tomaram o jeito das rédeas e o domínio dos aguilhões, enquanto esperavam pelas remessas da mítica Europa, quase transformada num novo Brasil. E de lá a vista era outra. As forças que tutelavam o pensamento dos homens davam-lhes mais espaço. Até os governos podiam ser derrubados! E os métodos de trabalho rendiam mais. Mas viver em “bidonvilles” não pode ser para sempre e alguns, já cansados de tanta vida, pecúlio feito, foram voltando. Por cá já encontraram os que, cansados de tanta guerra, tinham conseguido voltar inteiros ou quase. E as imagens que uns e outros traziam nos olhos gaseados dos fumos de Paris ou dos matos de Angola já não permitiam recuo. E, onde antes só havia pinhal, surgiram pequenas indústrias, e onde antes havia bois, passou a haver vacas, arredondando assim o pecúlio familiar com algum leite vendido às nascentes cooperativas. Depois vieram as motorizadas para aceder a empregos mais longínquos mas mais bem pagos. E depois as moto cultivadoras, assim melhor aproveitando os já escassos tempos e braços deixados livres para a agricultura. Tal como as culturas híbridas (a quem ninguém ainda chamava “transgénicos”), de maiores “retornos”, como mais longas e maiores espigas de milho, que tão mau jeito davam nas desfolhadas! Ou as vindimas com tesouras de podar automáticas, permitindo que dois fizessem o trabalho de vinte! E todas as actividades de comunitárias, de entreajuda e de afecto foram sendo abreviadas, optimizadas e substituídas por meios mecânicos. Sem apelo nem agravo. E sem afectos.
Quando hoje vou à minha aldeia no final de Agosto, ainda vejo por vezes a procissão. É que a paróquia, de tão grande se ter tornado, já só um ano em cada dois repete o percurso. Tudo mudou! A capelinha é agora um pavilhão pequeno mas modernaço, de alumínios e vidros. Até o meu S. Luís Rei de França está mais rosadinho, mais sorridente e (parece-me) mais pequenino, após uma ida a um restauro tão polémico quanto longo! Coisa que só os que lhe estiveram no caminho podem desvendar… Na mão, e porque as vindimas foram “deslocalizadas” para outras paragens de maiores produtividades e menores salários, um vistoso mas incaracterístico e “supermercádico” cacho de uvas… do Uruguai!

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