Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

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Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2004-08-18

O “fast-qualquer-coisa”

Quando estamos de férias é que normalmente aproveitamos para por os sonos em dia, os afectos em dia, os prazeres em dia, numa única expressão: a vida em dia. E isto porque aparentemente a nossa vida de todos os dias não nos deixa tempo para muito mais do que o trabalho! Ele é um sono rápido depois de fechada a televisão, ele é um beijo rápido no/a companheiro/a da vida, ele são as refeições rápidas (quase telegráficas) durante resto do dia que nos pertence. É a moda forçada do “fast”! A palavra tem tido um uso desmedido. E a palavra não é “rápido”, mas sim “fast”, porque dizer “fast” é ainda mais rápido que dizer “rápido”! E não há tempo a perder! E assim vamos vivendo uma vida sistematicamente adiada, na ânsia de virmos a ter tempo depois. Somos emigrantes dentro da nossa própria vida, em nome de um dia podermos “voltar a nós” com calma e tranquilidade. Mas muitos já lá não chegam: deparam-se antes com enfartes e outras consequências desta terrível “moda fast”. Uns ainda se safam com poucas mazelas, outros partem para um estilo limitado de vida ou, pior ainda, partem desta para outra. E o que ganharam com isso? Nada ou pouco. Porque muito do que iriam ganhar, perdeu-se pelo simples facto de não terem chegado onde pretendiam. E ficar a meio caminho é muitas vezes ficar sem nada. E mesmo os que chegam incólumes mas cansados ao fim dessa emigração interna, são sujeitos a reformas tão estreitas quanto as vidas que levaram, ou já nem têm animo para usufruir o que conseguiram amealhar. E vêm-se constrangidos a arrastar vidas ocas até ao fim. Então o céu aparece como uma natural redenção, como a única felicidade possível de sonhar.
Este parece ser um discurso de anti-produtividade e anti-aforro mas não! Estudos recentes apuraram que a sesta, por exemplo, faz aumentar a produtividade, porque contribui para um maior equilíbrio físico e psíquico. Finda a sesta (necessariamente curta), a cabeça está mais desperta e funciona melhor. Então se a sesta coincidir com a hora de maior calor do dia, excelente! É bom para todos: para os que trabalham e para os que dele usufruem. E que dizer da comida? Da célebre “fast food”? Há quem goste e quem não goste, mas o facto é que bem não faz, além de contribuir fatalmente para a destruição dos nossos hábitos alimentares. É sabido que a gastronomia é a arte de utilizar e adaptar os alimentos e produtos que existem numa dada região, às necessidades da população aí residente e ao seu estilo de vida. Ao contrário da fast food, que foi concebida regra geral a milhares de quilómetros do local de consumo, para seres anónimos e indiferenciados. Seja a América e os seus hambúrgueres ou a Itália e as suas pizzas. Isto é, dificilmente terá uma adaptação às reais necessidades da população que a utiliza. Usam-se cá, obrigatoriamente, as mesmas receitas (e os mesmos preparados alimentares) que no Japão ou no Brasil. E se antes, comer fora era um acontecimento, hoje, o acontecimento é comer em casa! Ou seja, estamos agora muito mais expostos a uma má dieta que antes. Mesmo o tradicional frango português não é hoje mais que uma colecção de nutrientes, hormonas de crescimento e vacinas, onde por vezes é ainda possível (graças a aditivos para dar gosto) sentir um pouco do paladar do célebre “frango do campo”, já desaparecido em combate com o frango moderno de crescimento rápido. Porque o próprio frango é rápido! Ou melhor, é “fast”!
Mas o facto é que os perigos não terminam aqui: sabe-se hoje que a Europa perdeu 75% da sua diversidade gastronómica nos últimos cem anos. Os Estados Unidos foram ainda mais atingidos: 93% das receitas tradicionais desapareceram no último século! E naturalmente, a biodiversidade também se ressentiu! Todas as espécies animais que viram o seu lugar substituído por espécies necessárias à tal “fast-food” e à “fast-life”, viram perigar a sua sobrevivência! Estima-se que 33% ou seja, um terço das espécies animais estão extintas ou em vias de extinção! Quanto a plantas, o panorama é ainda mais desolador: trinta mil variedades vegetais extinguiram-se nos últimos cem anos! Mesmo que, pelo seu estilo “fast” de vida, você durma pouco, saiba que enquanto você dorme, pelo menos meia dúzia de espécies vegetais deixaram de existir entretanto: nada menos de vinte e quatro espécies vegetais deixam de existir em cada dia que passa! Portanto, parece-me que a rapidez, só por si, nada de bom pode trazer ao mundo! E há coisas que só o tempo pode dar. Recordo-me de uma história que se contava, de um grupo de vinicultores americanos que visitavam as adegas de uma região vinícola francesa. No fim da visita, perguntava um americano: ”Mas se utilizamos as mesmas técnicas para fazemos o nosso vinho, o que é que o vosso tem, que é muito melhor que o nosso?” Ao que um francês terá respondido: “Mais duzentos anos, meu amigo, mais duzentos anos!”. É o tempo! É o insubstituível tempo curvo de Einstein!