Ardeu o meu país
Nada entendo de fogos. Só sei que o meu país ardeu de norte a sul. Tal como o ano passado. Depois das promessas de que tudo iria mudar, aparentemente a situação não melhorou. Parecia que já nada mais havia para arder mas ainda houve. E não houve lágrimas nem água nem nada que chegasse para apagar tudo o que ardeu. Nem para se perceber porque é que tudo arde. Monchique, Arrábida, Mafra, Alqueva, Murça, Caldeirão e tantos outros sítios, são novos pontos a negro no mapa de Portugal. Não se terá aprendido nada desde o ano passado? Sabemos que as mãos criminosas existem, mas também sabemos que não servem para justificar tudo; em particular a extensão e as proporções que os fogos tomam. Sabemos que as altas temperaturas potenciam os fogos e que estes se desenvolvem com uma rapidez impressionante. Sabemos que cada ano a situação em termos de temperatura não melhorará. Mas porque ardem tão intensamente montes e vales do nosso país? Muito se fala de mato rasteiro, de arvores secas, de cargas térmicas impressionantes, querendo com isso significar que as florestas estão cheias de caruma, mato, pinhas e ramos secos. Será que antes isto não acontecia? Aparentemente, não. Os pinhais e outras manchas florestais eram mais cuidados, mais limpos. Os fornos de pão (e de cozimento de cerâmicas e outros) eram consumidores vorazes destes produtos e o que por eles se pagava compensava o trabalho de limpar as florestas. Mas hoje é mais fácil, mais prático e mais económico ter fornos a fuel ou eléctricos, a partir de energias de importação que nos consomem as divisas. E as tais “cargas térmicas” ficam nas florestas à espera de quem as acenda, inadvertidamente ou não, para que de novo se aluguem ao estrangeiro, meios de combate que insistimos em não ter. Terá que ser mesmo assim? Será mais barato ter fornos a energias importadas? Imediatamente, sim, mas o facto é que a esse custo haverá que somar o custo dos fogos pela falta da limpeza a que a utilização desses materiais obrigava. E se o que se gastar em limpeza florestal for tão caro quanto o que se gasta no combate aos fogos, e assim se reduzir drasticamente a extensão destes, já estamos a ganhar. Porque ficamos com mais floresta, e ”de borla”. Se tivermos que subvencionar os fornos (e não só os de pão) e outros equipamentos de produção de energia que utilizem combustíveis alternativos (esses produtos da floresta que agora ninguém quer), estamos a ganhar ainda, porque ficamos com a floresta (quase) de borla e todos os recursos necessários são nacionais. É evidente que as coisas não são assim tão simples, mas haverá que constatar que os processos que têm sido tentados não têm funcionado. E os pirómanos não justificam tudo. Será sempre mais difícil propagar um fogo num pinhal limpo que num pinhal cheio de “cargas térmicas”.
O que é interessante é que eu acho que tudo está ligado… quando eu era miúdo, a vida processava-se de outra forma. Regrada pelas estações do ano. Comiam-se os primeiros morangos em Maio, as uvas no Verão, maçãs no castanhas no Outono e as laranjas no Inverno. Ia-se para a praia (quem ia, claro) no princípio do Verão, faziam-se as colheitas em Setembro. Era o ciclo das estações e dos campos. Mas a economia fabril e a industrialização da agricultura, alterou todos os dados dos nossos anteriores ritmos: comem-se morangos, uvas ou laranjas em qualquer altura do ano. Se não são produzidas em estufas no Algarve, vêm do Brasil, do Paraguai ou da África do Sul. Da mesma forma, as actividades sazonais desapareceram, e já não se recolhem as pinhas e a caruma em cada verão (quando estão secas e mais fáceis de transportar, e também mais combustíveis): liga-se à ficha um calorífero eléctrico! Não estou aqui a criticar nostalgicamente os antigos e mais duros trabalhos; só estou a enumerar algumas coisas que dantes se faziam e se deixaram de fazer. E o facto é que tudo está ligado e, quando se abandona uma actividade, há logo outra que se ressentirá desse abandono. Nada é inconsequente. E por isso (ou também por isso), os fogos são agora maiores que dantes. Haverá que reordenar os “ciclos de vida” e revalorizar e redar importância a coisas e práticas hoje caídas em desuso, e enquanto tal desvalorizadas. Há que entender em toda a sua extensão o que se perdeu e reencontrar novas fórmulas de reactivar muitas delas. O próprio modo de produção (agrícola, industrial, etc.) e a valorização ou desvalorização relativa das coisas e das actividades tem que ser repensada. Os fogos e a sua extensão é algo que entendo como a face visível de um grande iceberg formado de pequenos e grandes desajustes. Claro que é preciso combatê-los! Claro que são precisos meios e métodos melhores para o fazer. Mas, como em tudo, “mais vale prevenir que remediar”. E para prevenir, há que atacar as causas. E as causas, provavelmente, são muito mais amplas e relacionadas com as novas formas de vida do que aquilo que se possa pensar.

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