Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2004-07-21

A Feira de S. João 2004 e o Rossio de S. Brás

Não é meu hábito aqui tecer comentários às picardias, ataques, críticas e outras posições das forças políticas umas às outras, sobretudo quando tal se passa no âmbito local. E continuarei a não o fazer. De onde quer que venham, entendo essas guerrilhas como pouco interessantes e demasiado focalizadas em questões imediatas e de pormenor, raramente abordando questões de fundo. Isto, independentemente da minha concordância ou discordância com o conteúdo dessas mesmas críticas. Entendo contudo que tais críticas são o salutar exercício da democracia, embora muitas delas devessem ser mais fundamentadas, para serem coerentes e eficazes. Mas adiante.
Desde o início dos anos 90 que me tenho manifestado publicamente como opositor à ideia de retirar a Feira de S. João do Rossio de S. Brás. Da mesma forma, sempre defendi que a cidade estava carecida de um condigno pavilhão de feiras (industriais, agrícolas, etc.), e que tempo precioso já se perdeu para a sua execução! Foi por isso que me surpreendi quando chegou há escassos dias às minhas mãos, ou melhor, à minha caixa de correio, o jornal CDUévora n.º 5, de Junho deste ano. No editorial, dizem-se coisas que me parecem surpreendentes… Fala-se, por exemplo, num “coro de críticas, de cada vez que se aproximava a Feira de S. João, por ela ainda se ir realizar no Rossio de S. Brás”. Para ser franco, não me recordo de qualquer coro popular deste tipo, nem sequer de outras forças políticas perfilharem esta posição. O que me recordo é da obstinação da vereação anterior em tentar retirar dali a Feira. E recordo também a reiterada promessa de “no próximo ano já não ter esta localização”. E sempre teve! Dá então para perguntar se, em mais de 20 anos, não teve a CDU tempo para fazer o que queria. E a resposta é “Não”! Não teve porque o que a vereação anterior propunha era urbanizar o Rossio de S. Brás. Propunha reduzir este amplo espaço a uma nesga, ao arrepio do que está nos documentos de classificação da muralha e da Ermida, que (felizmente) obrigam à preservação de quase todo o espaço, exceptuando-se uma pequena faixa junto à Rua Ocidental. Até chegou a contratar o Arq. Siza Vieira para tal, e a mostrar a sua proposta (precisamente, numa Feira de S. João). Dizia-se então que o Rossio ficaria com 3 vezes a dimensão da Praça do Giraldo, sendo o resto do espaço todo construído. Ora, sabendo-se da dimensão da Praça do Giraldo…eu quase diria que três vezes nada, nada ou pouco é. E aí residiu desde sempre a questão: é que o Rossio de S. Brás é uma zona de protecção simultânea de vistas da Ermida de S. Brás e da muralha e… não se pode aí construir. A preservação deste “terreiro”, deste “rossio”, é também uma das componentes da tão propagandeada “Évora, Património Cultural da Humanidade”! E é um bem público (de todos nós, que por cá vivemos) que não pode ser utilizado de outra forma sem antes se alterar a lei. E felizmente que nunca a CDU conseguiu convencer as sucessivas tutelas da necessidade de alteração dessa lei! E não foi por falta de tentar! Poderá é ter sido por falta de argumentos. Acho portanto que a CDU, quando no seu jornal mistura a construção de um Parque de Feiras (que ela própria também nunca conseguiu levar a cabo, embora tenha explicitado essa intenção desde 1993/4) com a Feira de S. João, está a baralhar coisas diversas. Creio também que quando justifica a construção de um Parque de Feiras com a argumentação de obviar a “repetidos gastos de montagem e desmontagem e aluguer de pavilhões, para além dos incómodos de todo o tipo para os feirantes, os visitantes, os moradores da zona e o trânsito e estacionamento da cidade” está a iludir de forma bacoca a questão. Feiras destas fazem-se e desfazem-se em todos os cantos deste país e um pouco por todo o mundo, e nunca ouvi falar em feirantes ou visitantes incomodados. No que diz respeito aos moradores creio que, dado que os doze dias da feira de S. João existem desde o Séc. XIV, já se devem ter habituado. Subsiste o problema dos hóspedes do hotel, mas mesmo esse, quando ali se instalou, já tinha conhecimento de que uma feira ali se desenrolaria mensal e anualmente. A não ser que outra coisa lhe tenha sido então prometida! Com esta argumentação (dos gastos de montar e desmontar, dos moradores e do trânsito), como justifica a CDU tantos espectáculos (de saudosa memória, aliás) na Praça do Giraldo, quando a Rua era Viva? Para onde mandar então os Santos Antónios de Lisboa, ou os S. Joões do Porto e todos os eventos populares que fazem viver as cidades, perturbando, é certo, o seu normal funcionamento? Será matando ou alterando radicalmente as tradições populares? É uma atitude que considero –para dizer o mínimo- pouco democrática!
O que poderia (e deveria, em minha opinião) ter vindo a ser feito, lenta mas tranquilamente, era a requalificação do Rossio. Mas creio que a intenção era mesmo deixar degradar este espaço. Agora, é intenção explícita da actual vereação mantê-lo e requalificá-lo, no respeito pelos limites legalmente estabelecidos. Já houve até um concurso e foi seleccionado um projectista. (Sei bem do que estou a falar porque fui concorrente, embora não tenha ganho o concurso. Se bem que a proposta da minha equipa tivesse a melhor solução técnica, não conseguiu ser a primeira em outros itens). Espero portanto que o Rossio se mantenha como um espaço de fruição pública, a que todos temos direito desde há cerca de seiscentos anos. O Parque de Feiras, esse, é outro assunto. Não misturemos.