Euro 2004: Outros ventos, novos rumos
Acabou o Europeu 2004. Acabou “em bom”, em minha opinião. Se o óptimo é inimigo do bom, então, acabou “em bom” para a selecção portuguesa e optimamente para a selecção grega! No que a Portugal se refere, acabou excelentemente. Portugal teve os seus “cinco minutos” de glória e, se os souber aproveitar (interna e externamente), pode tranquilamente multiplicá-los. Scolari provou ainda que, sabendo-se o que se quer, e acreditando-se nisso, se podem atingir bons resultados. E demonstrou como: não cedendo a pressões externas que façam perigar o que se quer. Explicou também que não se trata de ilhas de excelência (a selecção) mas de uma rede em que todos têm que estar unidos pelo mesmo objectivo (a conquista da melhor classificação possível). E foi o que se viu! Está Scolari, estão os seleccionados, estamos todos de parabéns por isso. Percebeu-se finalmente que Portugal poderá deixar de se alimentar exclusivamente do prestígio dos tempos áureos das descobertas, se acreditar que é o que de facto é: um país e um povo tão bom quanto os outros, que tem direito a um futuro tão glorioso quanto o glorioso passado que ostenta. Para isso, será preciso pouco: acreditar (no que quer ser), trabalhar (para o que quer ser) e não ceder a facilitismos (como atalhos cómodos e outras corrupções que podem deitar tudo a perder). Para além, claro está, do necessário apoio de todos os envolvidos: todos nós. Para que o compreendêssemos, foi necessário o empurrão de um brasileiro: Luís Filipe Scolari! E não é por acaso: ele vem de um país onde as glorias, as honras e os orgulhos, para se sentirem, têm de ser fabricados antes, não existem já feitos como na nossa história. Esse é o privilégio dos países novos: o dinamismo necessário à sua própria afirmação! Privilégio a que Portugal teve agora, de novo, acesso. Nesse sentido, o futuro de Portugal pode começar hoje! E todos os dias a partir de hoje! Aproveitemos desde já estes ventos de mudança, estes cálidos ventos de auto-confiança e de amor-próprio. Espero que assim o compreendam os nossos políticos. E, se assim o não compreenderem, que sejam varridos! Acho que finalmente se abriu a porta ao que entendemos serem as nossas próprias capacidades. E se assim o não entenderem os políticos, que sejam varridos do governo, das câmaras e dos partidos! Em nome de uma nova filosofia e de uma nova prática de vida! Com menos peso da história sobre os ombros e mais força anímica na cabeça e nos músculos! De uma nova ideologia! De um pensamento mais nosso! E quem o não compreenda, que se vá! Alguma coisa terá que mudar, porque Portugal mostrou nestes últimos tempos que já não é o Portugal a que os políticos, os empresários e os gestores se habituaram! E isso tem de ser expresso em novas formas de nos relacionarmos uns com os outros, de fazer política, de trabalhar e produzir! Não houve desta vez as “vitórias morais” dos salazarentos, mas o reconhecimento geral de que somos bons (todos) e que podemos vir a ser ainda melhores! Desde que haja quem nos dê um motivo! Desde que haja quem nos saiba motivar! Isto é, desde que haja quem trace objectivos, quem os explique e quem nos convoque para os atingir. Parece ser esse o grande problema de Portugal: falta quem trace e proponha objectivos que entendamos, falta quem nos explique esses objectivos, falta quem nos convoque para finalmente (em conjunto) os atingirmos!
Costuma-se dizer que os portugueses são ingovernáveis. Não creio. Talvez o que seja preciso, seja assumir que o povo português, para se deixar governar, precisa de acreditar que quem exerce o poder o faz no melhor interesse do nosso país, do nosso bem-estar, e do futuro bem-estar dos nossos filhos. Ou seja, respeitando o glorioso passado mas construindo conscientemente no presente um futuro de que nos orgulhemos. Isto é, que exerça o poder não só em nosso nome mas também no nosso interesse, e que isso se sinta e se veja. Precisamos de políticos em quem acreditar, que nos saibam explicar o que querem, porque o querem e para onde querem ir. Que nos motivem! Não políticos de que desconfiemos porque nada nos explicam a não ser as nossas obrigações, esquecendo por vezes as deles. Não políticos que nos digam que se sacrificam por nós, não se percebendo como! Para servir o povo, não é só preciso percebe-lo como também ser percebido. E o fosso cada vez tem sido maior. Encontrámo-nos no futebol. Em bancadas diferentes, é certo, mas encontrámo-nos. Esperemos que eles tenham percebido o que têm andado a desperdiçar. Porque eu acho que nós percebemos o que temos andado a perder. E os tempos que correm não estão para perdas nem desperdícios. Nem nós temos tempo. Antes que seja tarde, é preciso mudar para melhor. Porque nós merecemos! E agora temos consciência disso!

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