Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2004-07-28

Arquitectura ou não, eis a questão…

Por vezes, perguntam-me porque não escrevo eu, aqui nestas colunas, sobre arquitectura… E nessa altura penso que talvez quem mo diga tenha razão. Ao fim ao cabo, se eu de alguma coisa souber, o mais provável é ser de arquitectura. Mas para mim, este espaço de escrita é mais um espaço de organização mental, o espaço cívico da minha vida quotidiana, um espaço em que me obrigo a reflectir de forma mais ou menos ordenada sobre o mundo em que vivemos. Porque, antes de ser o arquitecto que me orgulho de ser, sou um cidadão. Cidadão com todas as implicações cívicas, morais e políticas que isso implica. E é isso que aqui me apetece ser: cidadão. Mas será que as minhas reflexões têm interesse para os leitores deste jornal? E penso que, se calhar, assim aborreço quem me tenta ler. E que seria tempo provavelmente mais bem gasto se o usasse para discorrer sobre o que fui treinado para fazer: a Arquitectura. Em vez deste abuso de me armar em cronista. E logo raciocino: se eu tenho o privilégio de aceder às páginas de um jornal, terei de colocar-me na minha própria posição, isto é, na posição do cidadão comum que sou. Acho que os jornais estão demasiado cheios de artigos e reflexões de profissionais, e que lhes falta um pouco de “cartas ao director”, de “correio dos leitores” e secções desse género. É por isso que me assumo como um leitor razoavelmente atento da realidade e que discorre sobre ela, como todos nós fazemos, no silêncio dos nossos pensamentos. Só que eu escrevo o que penso e dou-o à estampa. Tenho a legitimidade que qualquer um tem para o fazer, mas disponho de um privilégio bem mais raro: tenho a possibilidade de o tornar público! O que torna tudo um pouco diferente. Em primeiro lugar, corro o risco da falta de privacidade do que penso e escrevo, o que me leva por vezes a ouvir “concordo consigo” ou, pior, “discordo em absoluto da sua opinião”. Com toda a legitimidade! Só que “eles” sabem o que eu penso de antemão mas eu, não sei o que “eles” pensam! “Eles” partem em vantagem para um potencial discussão, e essa tem sido uma parte interessante deste desafio. Em segundo lugar, qualquer erro ou falta de coerência das minhas posições e reflexões é imediatamente posto a nu. Porque é de certo modo público (porque publicado) o que eu penso sobre diversas coisas (e, com esta já vão mais de 160 crónicas e quase 160 temas!). Até agora, tenho-me”safado”! E finalmente, entendo que o ser lido comporta uma responsabilidade acrescida: a capacidade de poder influenciar os leitores ou, pelo menos, de lhes dar mais uma perspectiva (se for diferente da sua própria) que venha a enformar o seu próprio pensamento. Longe de querer ser um “opinion maker” ou “formador de opinião”, no nosso rico português, tenho contudo consciência que quem se dirige ao público através de um jornal, pode exercer alguma influência. E volto à ideia inicial: Será que é melhor eu escrever sobre arquitectura? Da mesma forma que eu acho que a política é demasiado importante para ser somente discutida e manuseada pelos políticos, também acho que a arquitectura é demasiado importante para ser só discutida por arquitectos. E se eu escrevesse sobre arquitectura e conservação de edifícios, acho teria de seguir a via assumida de “formador de opinião”, dado ser oficial desse ofício. E, mais uma vez, estaria a remeter a arquitectura para os seus profissionais. Mas eu, em vez de formador de opinião, pretendo ser “agitador” de opiniões. Explico-me: não pretendo impor o que penso a ninguém; só pretendo (tanto quanto sou capaz) chamar à atenção para as coisas do dia-a-dia, e provocar em quem as lê, reflexões sobre esses mesmos factos. E que cada um forme a sua opinião. Semelhante ou diferente da minha.
É evidente que, em arquitectura, isso é-me mais difícil. Até pelo facto de as minhas opiniões partirem de uma base seguramente mais documentada e fundada que a do “comum dos mortais”. E eu quero precisamente colocar-me na posição de “mortal comum”. Com opinião discutível e criticável. Por todos. É por isso que só raramente aqui escrevi ou escreverei sobre Arquitectura. Pelo menos, sob o título de “Crónicas ao correr da pena”. E assim continuarei.