O terrorismo somos nós próprios
Tem-se ouvido nestes últimos tempos falar bastante de segurança. O legítimo medo das acções de grupos suicidas torna a nossa vida um pouco mais insegura e psicologicamente arriscada. Ataques como os do 11 de Setembro, do 11 de Março ou os ataques quase diários em Israel são aparentemente fáceis de levar a cabo, e vêm a provar-se eficazes do ponto de vista de quem os executa. Mesmo porque não será nunca possível prever o que poderão imaginar a seguir. É evidente que haverá que contrapor o terror dos ataques das forças organizadas de países que se arrogam poder policiar o mundo. Os Estados Unidos, alguns países europeus e Israel estão neste caso, mas os seus objectivos localizam-se lá longe, na antiga Jugoslávia, no Afeganistão, na Palestina ou no Iraque e, portanto, não os sentimos como uma ameaça directa. Podemos não os entender nem subscrever, mas não constituem para nós (portugueses, europeus e ocidentais) uma ameaça ou uma insegurança. Mas não queria, nem aqui e nem agora, tomar partido sobre quem tem razão e quem a não tem, nem é sobre isso que me proponho discorrer. É que com tanta preocupação de segurança policial, têm-se descurado outras seguranças que me parecem tão ou mais importantes. Há ameaças bem reais e presentes e, pior que tudo, mais universais e perenes! Falo dos em cada ano acrescidos riscos de incêndios incontroláveis nas florestas, falo do sempre presente risco de um sismo de grandes dimensões, falo dos crescentes riscos de fortes inundações. Por outras palavras, andamos nós com o “credo na boca” relativamente aos ataques terroristas, enquanto os terrorismos naturais são cada vez mais ignorados ou esquecidos, embora cada vez mais presentes e ameaçadores. Pergunto se estaremos todos bem conscientes sobre o que teremos de fazer (ou não fazer) se houver um sismo? Ou um grande incêndio urbano. Recordo o dramático incêndio da Baixa de Lisboa, e das consequências que ainda hoje, mais de quinze anos depois, se fazem sentir. Mas nós podemos contribuir para a nossa própria segurança! Será que quando estacionamos mal um automóvel, só nos preocupando com a nossa própria comodidade, medimos quais poderão ser as consequências se um sismo ou um incêndio) ocorrer? Será que quando atravancamos as ruas e os passeios de carros (só nos preocupando com a nossa comodidade e os riscos de multas) alguma vez pensamos no que tal poderá contribuir para a morte de muitos (inclusive de nós próprios), em caso de catástrofe? Isto, para já não falar da violação que tal constitui à liberdade e autonomia todos, em especial de quem não tem as suas capacidades plenas. Recordo os velhos, as crianças e os deficientes, que hora a hora somam agressões que os mais comodistas de nós os obrigam a sofrer. São questões de civismo que todos os dias e em toda a parte vemos atropeladas, por um egoísmo de que cada vez mais somos autores inconscientes e potenciais vítimas. Um pouco mais de civismo, de respeito pelos outros (e portanto por nós) e tudo seria um pouco menos dramático. Acho que chegamos a um ponto em que a falta de civismo já nos atinge como ameaça à nossa própria integridade física. Os carros um pouco mais ordenadamente estacionados e os eventuais acessos de viaturas de urgência (bombeiros, ambulâncias, polícia, etc.) seriam muito facilitados (e sabemos que a rapidez é nestes casos fundamental); as obras mais bem assinaladas e balizadas e os riscos de acidente diminuiriam (quantas vezes nos vemos obrigados a andar na faixa de rodagem, por ocupação dos passeios?). Quantas pessoas não tentam ludibriar as fiscalizações e as regras camarárias para tornar mais baratas, rápidas ou apetecíveis as suas obras, esquecendo que, em caso de catástrofe, serão elas as mais beneficiadas pelo cumprimento das regras? Dou como exemplo -único para não ser maçador- a construção nos leitos de cheias. Infelizmente, estes exemplos poderiam ser multiplicados à exaustão, em todos os domínios da actividade humana. Seremos co-responsáveis não pelas catástrofes, mas pela sua extensão, se não modificarmos a nossa forma de nos relacionarmos com os outros e com o meio em que habitamos. Não quero tentar desculpar ou arranjar culpados por tal estado de coisas, embora tenha uma ideia sobre isso, mas o facto é que a situação já é tão dramática, que é urgente que nós, todos nós, façamos alguma coisa para contrariar o rumo que esta falta de civismo tornado insegurança está a tomar. É que, melhor ou pior, dos “terroristas encartados”, temos alguns milhares de polícias que se ocupam, mas nós somos vários milhões e não há polícia que resista!

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