O meu voto
Estamos em plena campanha eleitoral! Dentro de escassos dias, todos teremos já votado. Segundo as últimas sondagens, este “todos” que empreguei parece ser demasiado … É quer aparentemente, menos de metade dos potenciais votantes irão exercer esse seu direito. Há uma espécie de apatia não só em relação às eleições, mas mais generalizadamente em relação a toda a vida política. E a verdade é que a vida política, longe do empolgamento dos idos anos setenta, da época de adesão à comunidade ou até da substituição do Escudo pelo Euro, se encontra entre os temas de grande tristeza e pessimismo nacionais. As comparações com o desenvolvimento de outros países da Europa julgados semelhantes ao nosso, o congelamento dos salários, o aumento do custo de vida e os despedimentos deixam um travo amargo na vida política portuguesa. Assim se entende que os portugueses tentem encontrar noutros campos menores – no futebol, no desporto, na música- as alegrias que lhes faltam no dia-a-dia mais pragmático da fábrica, do escritório ou do campo. E que tentem reflectir nalguns dos protagonistas desses campos –Mourinho, Figo ou os “famosos”- o sucesso e a vida com que eles próprios sonham e que acham que seriam capazes de conseguir. Não é surpreendente, portanto, o súbito afluxo de bandeiras nacionais, não só nos campos de futebol, mas também nos recintos dos festivais de música. É assim como que uma colagem aos sucessos que se auguram à Selecção e, na prática, uma tentativa de estar, ao menos por uma vez, do lado do vencedor. Ou pelo menos, do lado de um grupo de reconhecidamente “bons” com que se identificam. Em português rápido, é como se se dissesse “eles elevam a bandeira e a malta vai de boleia”… Não creio, portanto, que seja uma manifestação genuína de amor pátrio ou o retorno a uma relação natural com a bandeira ou com o hino. Se assim fosse, após as derrotas da “Nossa Selecção” no último Mundial de Futebol, a moda das bandeiras nacionais teria continuado, mas desapareceu. É por isso que fora do futebol, do desporto e dos festivais é difícil ver bandeiras nacionais! Talvez daqui a pouco, durante os Jogos Olímpicos, mas já serão mais raras.
O desencanto pela vida de todos os dias e pela vida política, reflecte-se através do voto ou, como penso que irá acontecer, através da sua falta. A abstenção reflecte, em minha opinião, o desencanto, a descrença e a falta de utilidade que vemos nas instâncias europeias. Pessoalmente acho que não é assim, mas o facto é que poucos ou nenhuns candidatos nos explicaram porque é que a Europa nos é fundamental, ou porque é que os deputados que elegermos nos podem ser úteis. Ficaram-se pelos ataques pessoais. E assim é difícil viver. Este desalento amargo que carregamos faz-nos descrer neles e em nós. E sem amor-próprio pouco ou nada é possível. E já se sabe que o amor-próprio dado pelos futebóis é sempre sol de pouca dura. Haverá que entender que as eleições são o melhor método, enquanto outro não houver, de expressarmos o que pensamos e o que queremos. E, de certa forma, de participarmos por alguma forma nas grandes decisões que em nosso nome serão feitas. Em minha opinião, o melhor voto útil é o voto no partido que julgamos melhor nos representar. Independentemente de produzir deputados ou não. Servirá sempre para reforçar aquilo que esse partido virá a dizer no futuro. E será sempre melhor que a abstenção. Porque uma abstenção é uma demissão, é mais um “cruzar de braços”. E isso favorece todos os partidos de que não se gosta, ou que entendemos não nos representar. E isso, independentemente de quem “ganhe” as eleições, porque nestas eleições não haverá ganhadores; só perdedores. E esses perdedores não coincidirão exactamente com os partidos que não elegerem ninguém. Não esqueçamos que, mesmo depois dos futebolistas voltarem para casa (com ou sem a taça embrulhada na bandeira), serão os políticos que elegermos que, a coberto dessa mesma bandeira nacional, em nosso nome tomarão posições e votarão leis. Se nós não tivermos votado, nunca os poderemos responsabilizar por nada. Não poderemos nunca dizer que eles nos leram o pensamento ou que nos traíram as expectativas. E serão sempre mais responsáveis e responsabilizáveis que os futebolistas do nosso contentamento ou descontentamento. Independentemente da escandalosa diferença de salários que uns e outros ganham. Independentemente da escandalosa diferença de salários que uns e outros têm de qualquer um de nós. De uma coisa poderemos ter a certeza: nem uns nem outros sobreviveriam sem nós. Nós somos de facto, a razão de ser de uns e de outros. Por isso temos a responsabilidade de votar. E também o direito. Se o voto fosse assim tão desprezível, o número de democracias no Mundo seria maior. E não é. Há que colocar cada um no seu lugar, e os deputados europeus são eleitos por nós. E há que lhes exigir que se esforcem pelo menos tanto quanto nós nos esforçamos, e nos prestem contas dos seus desempenhos, principescamente pagos. Sempre em nome de todos nós.

0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home