Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

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Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2004-06-23

O longo silêncio do Euro 2004

Tenho, como todos, a cabeça cheia de futebol… Eu, que nem sou especial amante deste desporto e ainda menos dos seus entrefolhos! Mas é impossível ficar impassível a tamanha avalanche de estádios, campos e meios-campos, de bolas, balizas e golos, de jogadores, seleccionadores e outros treinadores. Isto, para já não falar dos jogos, das transmissões e da publicidade. E das mulheres e das famílias dos futebolistas, e das suas sempre surpreendentes relações com Portugal e com o português. Portugal é onde tudo se passa e na prática, tudo em Portugal é futebol… e tudo parece estar bem! Irmanamo-nos todos nos jogos, no estádio ou em frente a um qualquer televisor. Desde o dia 12 de Junho que não há impostos, aumentos de gasolina, salários em atraso ou quaisquer maleitas sociais. O tiro de partida foi dado pelos festivais de música nos dias imediatamente anteriores ao arranque do “Euro 2004”, e depois disso toda a actividade não futebolística serenou, para não dizer que parou! Nem sei se há Diário da República… mas a haver, desconfio que devem estar a vir impressos a verde e vermelho, com uns laivos de amarelo, ou pelo menos com uma tarjeta em forma de bandeira no canto superior esquerdo. Já quase me surpreende que o próprio Presidente da República não ande de bandeira a tiracolo! Ou mais discretamente, com um “pin” na lapela. Já se sabia desde Galileu que o mundo era uma bola e girava. Agora confirma-se que sim, mas que é uma bola de futebol! Tudo o que de bom e de mau se passa, passa-se por causa do Euro 2004: desacatos, tempestades, assobios, ovações, maus-olhados, encantamentos, fascínios e ilusões! Vivemos num mundo mágico sem correspondência real. Acordaremos para essa realidade, dura e sem remissão, no fim do sonho. Qualquer que seja a data do fim do sonho. Para uns, o fim do sonho coincidirá como início das doces férias à sombra de uma qualquer bananeira ou palmeira num resort de luxo quase tão acolhedor quanto própria a conta bancária. Para outros, para quase todos os outros que assobiaram, ovacionaram, claxonaram, se embebedaram de pátria e se enrolaram e embandeiraram em arco verde-rubro com as quinas, as chagas, os sete castelos mouros e a esfera armilar, para todos esses que se emocionaram e se comoveram quase até à apoplexia, será o retorno à rotina triste dos dias a prazo, tal como o emprego e o vencimento, será o retorno à vida a prestações tal como o carro e a casa. Será portanto o retorno à realidade mais que palpável dos longos anos de salários curtos sem férias e quantas vezes sem féria. Será o retorno à dura realidade. Então, estará de volta o Caso Casa Pia, o Caso Bombardier, o Caso Apito Dourado (estará?) e todos os outros muitos casos a que poderemos chamar o Caso Portugal. O Caso Portugal que quase me atreveria a chamar Ocaso Portugal, não fosse a vontade inquebrantável deste Povo-Fénix que sempre, sempre, se soube reerguer das cinzas de si próprio ao longo de mais de oitocentos anos. O Ocaso do Euro será portanto o início desse momento ensurdecedor e agreste que se seguirá ao fim da ilusão, qualquer que seja o seu desfecho. Aí, no fecho dessa ilusão, olharemos para trás e veremos tudo o que o silêncio ensurdecedor do Euro não nos deixou ouvir nem ver. E então compreenderemos o longo silêncio do Euro…