Lino de Carvalho
Não poderia deixar passar em claro o falecimento de Lino de Carvalho. É sempre brutal e triste a notícia do falecimento de alguém que se conhece, mesmo que seja um evento esperado.
Conheci Lino de Carvalho em Évora, alguns anos depois de ter vindo para cá viver. Era já na altura deputado por este círculo. Da televisão, tinha dele a imagem de um tribuno aguerrido, corajoso e afirmativo. De um homem de luta, de convicções e de causas. Pessoalmente, era uma pessoa afável, simpática e dialogante. Um homem que sabia ouvir e respeitar os outros. O rosto visível da Reforma Agrária, o defensor intransigente das conquistas do povo rural alentejano era um homem a quem se podiam expor pontos de vista diferentes ou opostos aos seus. Ouvia com respeito e contra-argumentava, se achava necessário. Mas sempre com enorme elegância, bom senso e cordialidade. Habituei-me assim a ouvir e respeitar o Lino de Carvalho, e essa era também a sua atitude para com os outros, qualquer que fosse a sua posição, ideologia ou condição social. Com uma humildade rara nos políticos. Era um homem que inspirava confiança e amizade. Foi portanto sem surpresa que vi, prestando-lhe a última homenagem, muita gente que se lhe opunha politicamente. Muita gente que nada obrigava a estar presente a não ser a relação pessoal sincera, muita gente a quem até poderia ser eventualmente incómodo estar lá. E em todos senti a tristeza da perda de alguém que se preza, de um amigo. Porque disso se tratou.
A Assembleia da República perdeu um excelente tribuno, o Partido Comunista um dedicado militante. A família perdeu um ente querido e todos nós perdemos um amigo. O país, esse, perdeu um homem bom, dos que fazem falta. Dos que há poucos.

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