A vida é curta. Assim não seja a memória!
A vida é curta, diz-se. E é verdade! Ainda há pouco eu vi um programa de televisão onde se dizia que o Homem apareceu na Terra há cerca de vinte milhões de anos, e só há pouco mais ou menos dez mil iniciou o que se chama aquilo que se poderá chamar a História (ou melhor, a Protohistória). Cito estes números de memória, mas não creio enganar-me muito. Estimemos agora que cada século vê três gerações. Ou melhor, quatro, porque a esperança de vida tem vindo a aumentar. Admitamos então que os ciclos fossem de quatro gerações por cada cem anos. Tal quereria dizer que há cerca de quatrocentas gerações não havia nada do que hoje classificamos como produto do génio humano: nem pirâmides no Egipto, nem pirâmides na América Latina, nem Stonehenge nas Ilhas Britânicas, nem cidade de Jericó (a mais antiga cidade que se conhece) na Palestina. Nem sequer a Muralha da China. E por essa altura, o Homem já por cá andava há oitocentas mil gerações! Ou seja, por cada uma das gerações nascidas desde esse tempo “chegado” para cá, há duas mil gerações para trás! Pode portanto dizer-se que a Humanidade é muito antiga, mas que as suas formas de organização e de transmissão de cultura são bastante modernas. De tal forma que tudo o que existe sobre a terra como produto do trabalho e do engenho humano foi produzido em menos de 0,1% do tempo que a Humanidade já leva de vida! Eu sei que o 0,1% corresponde a cerca do dobro do tempo de que falei antes (que seria 0,05%), mas o número é tão pequeno que desafia a nossa capacidade de imaginação e de abstracção… e assim, em 0,1% ou seja, 20 000 anos, já posso englobar tranquilamente Foz Côa, Altamira, Lascaux, as pinturas rupestres do Sahara e muitas outras coisas! Tudo o que hoje sabemos culturalmente, geneticamente, intuitivamente, “cromossomáticamente”, é um saber acumulado e transmitido subtilmente desde há muitos milénios. O que nós, humanidade, aprendemos a fazer nestes últimos anos (digamos, os tais vinte mil), é que tem de ser ciosamente preservado, porque ainda não nos entrou nas entranhas, no sangue, na alma, nos cromossomas. E isso é que pode desaparecer! E se desaparecer é para sempre. Tal como as espécies hoje em vias de extinção, e que durante milhões de anos viveram na paz e no respeito do seu lugar na cadeia da vida, tal como os recursos naturais não renováveis que em breve exauriremos, e que são o produto da acumulação de milhões de anos como o carvão ou o petróleo. Portanto, todo o esforço de preservação é bem vindo. Preservação de recursos naturais, preservação de formas de vida, preservação de memórias. É nesta última forma de preservação que se insere uma exposição que está esta semana na Galeria do INATEL de Évora, sobre a Arquitectura feita de Terra crua. Chama-se “A Terra na Arquitectura” e é promovida pelo Grupo “Centro da Terra”, a que me orgulho de pertencer como sócio fundador. A construção de terra é um saber ancestral, hoje quase desaparecido em Portugal. É preciso lutar contra esse desaparecimento. Durante anos lutei por cá quase sozinho contra essa eminente fatalidade. Hoje, vejo com alegria que já somos muitos mais, de Norte a Sul do país, a lutarmos pela manutenção desse saber antigo, quase tão antigo quanto História da humanidade de que falava há pouco. De facto, a cidade de Jericó, a mais antiga que se conhece, é inteiramente feita neste material. E ainda hoje existe! Muito do que conhecemos um pouco por esse Mundo fora é também de terra. E não só a arquitectura “antiga”, “pobre” ou “atrasada”, como muitos ainda querem fazer crer! A Alhambra de Granada é em terra, tal como o Paço Ducal de Vila Viçosa. Mas o futuro também já ai começa a estar! Os mais modernos hospitais na Arábia Saudita, os hotéis de última geração na Austrália, ou as vivendas orgânicas dos muito ricos na Califórnia, são hoje de terra, excelente material de construção a que –creio- o Homem se terá adaptado e não o contrário. A terra é isso mesmo: um material de construção mais velho que a própria Humanidade, e que a acompanha desde sempre, ou pelo menos, desde que o Homem sentiu necessidade de moldar o seu próprio abrigo. A terra é, mais que as cavernas onde se diz que o Homem se abrigava, a essência da própria arquitectura. É que, ao contrário dessas cavernas, a terra molda-se segundo os desígnios, os caprichos e a arte dos seus construtores, em formas confortáveis e aconchegantes. Melhor que qu7alquer outro material. E hoje, os jovens arquitectos colocam-na outra vez na ordem do dia! Em Portugal como também no resto do Mundo! É por isso que me sinto feliz, orgulhoso e honrado! É que, afinal de contas, eu/nós só lutei/lutámos (quase) sozinho/s, uns ínfimos átomos de tempo…

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