Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

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Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2004-05-26

A Letícia, o Felipe e eu

No meio de todas estas comemorações e núpcias reais, não deverá constituir surpresa para ninguém, eu assumir-me como republicano e laico. E provavelmente também, como socialista. Mas neste último particular, tenho dúvidas. Claramente, entendo que o Mundo deve tender para que todos e cada um de nós, habitantes deste terceiro grão de poeira a contar do Sol, tenhamos o suficiente para comermos e vivermos tranquilos e com dignidade, e de harmonia com a Natureza. O que está muito longe de acontecer hoje em dia. Mas também não sei se o socialismo, tal como ele é entendido, nos levará a essa sociedade mais igualitária sem grandes sobressaltos. Ou seja, não sei (de facto, não creio) que as privações de liberdade individual sejam um bom método de imposição de regras rígidas de racionamento dos recursos existentes. Porque é disso que tratam as ditaduras ditas populares. Depositar muito poder (mesmo que não seja TODO o poder) nas mãos de poucos, sem controlo eficaz nem efectivo, não me parece levar a bom porto. Até agora, que eu saiba, nunca levou. Parece mesmo ser socialmente mais aceitável dar-se mais liberdade individual em troca de menos igualitarismo. Acho portanto que, no que se refere a socialismo, se deverá proceder à revisão dos princípios (e dos meios) há mais de cem anos enunciados por Karl Marx e por muitos outros teóricos. Naquela dobra de século de grande agitação social, havia muitos teóricos de bem-estar social, mas Marx foi aparentemente o mais consistente. E também o que mais resultados veio a obter. Estou contudo convencido de que se ele agora voltasse a este mundo e começasse a enunciar princípios ditados pela sua análise da actual situação mundial, os seus principais opositores seriam os actuais marxistas. É que eles apegam-se ao que Marx disse há mais de 100 anos, e a realidade mudou tanto, que acho que o próprio Karl Marx hoje, diria coisas completamente diferentes. É por isto que eu não sei se sou socialista. De igual modo, acho que o mesmo poderia acontecer a Cristo ou a Maomé se cá voltassem. Ao longo dos séculos, e em nome de cada um deles, se por um lado foram assumidas atitudes da maior bondade e humanismo, por outro foram também perpetrados os mais hediondos crimes. Basta recordar as Cruzadas ou a Inquisição e a Intifada ou estes novos ataques terroristas. Sem que de nenhum dos seus excepcionais mentores possa ser obtida qualquer concordância ou discordância sobre as infinitas leituras e releituras que dos escritos sagrados se possam fazer. É por isso que também me assumo como laico. Com todas estas razões (e por mais socialmente incorrecto que isso actualmente possa parecer) sou portanto republicano! Não consigo conceber que os homens e as mulheres não nasçam (pelo menos teoricamente) livres e iguais em direitos e em deveres. Não consigo conceber que os homens e as mulheres não sejam iguais perante a lei. E aceitar a monarquia (tal como ela é comummente aceite) é aceitar que há pelo menos duas camadas de pessoas na sociedade: uma “normal” e outra privilegiada. Ou seja, que a capacidade ou incapacidade de cada um possa ser atenuada, realçada ou agravada, pela sua génese social, pelo seu nascimento. E que assim se manterão pela vida fora, nunca podendo ter todos, os mesmos direitos. Aceitar isso, implica não se poder ser socialista. Aceitar isso implica ainda aceitar poder haver dois pesos e duas medidas em função de factores exteriores à condição humana. Houve um tempo em cada sociedade, em que não havia nobres e povo, mas apenas “gente”. Alguns distinguiram-se de todos os outros por qualquer razão, e enquanto tal foram reconhecidos e admirados. Reconhecida a nobreza do seu carácter, tornaram-se nobres. Ou seja, na essência, os nobres de hoje não são mais que os descendentes (e, quantas vezes, por ínvios caminhos) de um próximo ou longínquo ser excepcional. Nessa altura, o reconhecimento era feito pela concessão de bens preciosos: terras e títulos. Terras e títulos esses que legaram aos seus descendentes. Descendentes esses que nada fizeram para serem merecedores de especial reconhecimento. A não ser serem (pelo menos em teoria) filhos de alguém ou algo. Fidalgos, portanto. Mas isso não faz desses descendentes, seres excepcionais ou merecedores de reconhecimento especial, sem nada a provar. Tal como justamente se diz que o filho de um ladrão não é por isso um ladrão, também o filho de um ser excepcional não é por isso um ser excepcional. E com maioria de razão, os seus netos ou bisnetos. Não entendo portanto a hereditariedade como um factor de distinção social. É bom, aliás, não esquecer, que foi esse princípio que levou à Segunda Guerra Mundial e ao extermínio dos judeus.
Espero que a Letícia Ortiz e o Felipe de Borbón sejam felizes, mas é por tudo isto que sou convictamente republicano.