Alargar o Alargamento
Faz hoje cinco dias que a União Europeia passou a congregar 25 países. Creio ser a maior união jamais obtida no planeta. Os números são impressionantes, quer no que se refere a capacidade intelectual e produtiva instaladas, quer no que se refere a consumo. Tenho contudo para mim que a Europa não é uma unidade, isto é, não creio que se possa dizer que existe uma União cultural Europeia e ainda menos uma Coesão Europeia, fundamentais a uma Comunidade Europeia. Lá União Europeia de Consumo ainda vá que não vá, porque as grandes companhias farão com que consumamos o mesmo aqui, na Finlândia ou em Chipre. Mas o “gaspacho” alentejano ou o “gulash” húngaro não permitem transporte ou fabricação sem perda de boa parte do seu rigor e do seu sabor, pelo que serão reduzidos a produtos exóticos ou proscritos como o já foi a cabidela. Reinará talvez o antigamente “bife hamburguês” agora americanizado para “hamburger”, pois tem grandes hipóteses de ser pan-europeu, porque já é mundial. Um reino incaracterístico, portanto.
A União Europeia terá de continuar a viver com povos, culturas, ritmos e sabores que nada têm a ver uns com os outros e que se desconhecem, isto é, que não constituem uma comunidade (porque pouco ou nada têm em comum). Sinto-me culturalmente mais próximo de Marrocos, da Turquia ou da Grécia que da Estónia, da Finlândia ou da Hungria. Pelo menos, temos alguma (para não dizer bastante) história comum. Mas o que nos unirá, realmente, aos 25, já que somos uma União Europeia? O que teremos em comum, já que somos uma Comunidade? Pouco ou nada conhecemos uns dos outros, e assim pouco teremos de consciente em comum. Para já, o mesmo continente, mas isso parece-me pouco, e pouco característico. É sabido que o que une os povos é a água, os rios e os mares, e não as longas extensões de terra, as montanhas ou as grandes planícies. E de união de idiomas, estamos conversados: trabalho para os tradutores não vai faltar e o inglês continuará o seu papel de língua franca. Fala-se na democracia como vínculo europeu, mas isso também tem múltiplas definições e convenhamos, uma história demasiado recente na Europa: Hitler, Mussolini, Salazar e Franco foram só os últimos protagonistas anti-democratas assinaláveis. Nada aparentemente, de característico, nos une. Seremos então uma União cada vez mais incaracterística e inorgânica! E isso é preocupante.
O objectivo desta ampliação (e das outras, creio) da União esconde-se subtilmente sob a designação que deram os dirigentes europeus à operação: Alargamento. Porque só precisa de alargamento quem está “apertado”. Alargam-se os sapatos novos, alargam-se as estradas, alargam-se osmercados. Alargam-se, não se somam ou integram. É assim como ter “o mesmo” mais largo ou, como ter “mais do mesmo”. Mas quando se trata de países, de gente, de culturas, qual é o sentido de “alargar”? E como é que este conceito se pode “encaixar” em ter “mais do mesmo”? Posso estar enganado e consulto o dicionário:
“Alargamento – Acto de alargar”
“Alargar - Tornar largo, extenso. Dilatar. Afroixar. Prolongar.”
Em nenhum destes conceitos pode ser incluída uma nova realidade, que deveria ser o que ocorreria com a inclusão de novos estados-membros. Ou seja, para os órgãos comunitários, alguma coisa que já existia deve ser “alargada”, “extendida”, “dilatada”, “afroixada”, “prolongada”! Não sendo a própria Europa geográfica, que já tem esta forma há muito tempo, não sendo as culturas, porque também são localizadas e ancestrais, só creio poder ser o mercado! Esse pode ser alargado! Então aí, sim, torna-se claro para mim o que é de facto o alargamento. Alargou-se o Mercado! Não se sabe nem interessa quantos novos contributos são esperados para a resolução dos graves problemas que ameaçam a Europa, como o desemprego estrutural, o aumento da SIDA ou a crescente frustração dos jovens que são o futuro desta parte do Mundo. Mas toda a gente já sabe que o número de cidadãos/consumidores da União passou para cerca de quatrocentos e oitenta milhões de pessoas, “um mercado maior que o dos Estados Unidos” no dizer dos jornalistas! Então a imagem do Mercado Comum é ainda a imagem de referência desta nova/velha Europa Comunitária, a que há pouco se decidiu chamar União Europeia… O espírito do Mercado Comum continua portanto a ser seu verdadeiro motor. Nada de novo se passa, então! É só a admissão de mais alguns consumidores no amplo supermercado europeu, e de mais alguns trabalhadores, desde que continuem baratos. E quando finalmente as empresas que contam se adaptarem e exigirem mais consumidores, outro alargamento virá alargar a União Europeia alargada. Ou, quem sabe, uma União Europeia “afroixada”!
Lembram-se da Europa dos Cidadãos? Era lindo, o sonho do Jean Monet!

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