O sentido da vida
Ouço frequentemente a expressão “criar postos de trabalho”. É uma expressão não só ouvida em Portugal, mas um pouco por todo o Mundo. Até Bush, na mais liberal economia do Mundo, é louvado por criar postos de trabalho! E a imagem com que se fica é que se criam “postos de trabalho” para que as pessoas tenham “trabalho” e não pela necessidade real que possa haver do trabalho ou dos bens que elas possam produzir. Será assim? Francamente, não creio. Recordo-me de um episódio da excelente série inglesa “Yes Minister (Sim, Sr. Ministro)” em que havia um hospital que funcionava na perfeição, sendo até dado como exemplo a seguir, em termos de organização. Esse hospital tinha contudo um detalhe curioso: não tinha doentes! E o ministro era aconselhado a não obrigar o hospital a fazer admitir doentes, porque senão o seu símbolo de excelência poderia ser beliscado e passar a funcionar mal. Ou seja, funcionava bem mas para nada servia. É esta imagem que me ocorre quando se fala em criar postos de trabalho…algo que se faz para que haja trabalho, não para que globalmente se viva melhor. A imagem que se tem é que são as empresas que fecham fábricas (mesmo sem falir) ou fazem “downsizing” (despedindo trabalhadores) e os governos é que criam postos de trabalho! Parece ser uma questão de imaginação, essa de criar de postos de trabalho, e não uma forma de aumentar o conforto ou melhorar o padrão de vida de todos nós. Aparentemente, um non sense, um absurdo. Parece que a organização social e do trabalho corre permanentemente atrás da possibilidade de criar objectos, eventos, coisas prescindíveis; mas no entanto algo que permita às pessoas trabalhar para terem dinheiro para viver. Como se trabalhar fosse o objectivo, independentemente do seu fim. Como se fosse um objectivo viver para trabalhar e não trabalhar para viver! E no entanto, da esquerda à direita, todos se atropelam na ânsia de criar ou ajudar a criar postos de trabalho, “quantos mais, melhor”, que dentro de alguns anos serão objecto de “redimensionamentos”, de “racionalizações da força de trabalho” e de “melhoria da rentabilidade por trabalhador” e passarem a ter “quantos menos trabalhadores melhor”. Então, um novo ciclo se iniciará de invenção de novos “postos de trabalho”, “quantos mais melhor”, etc., etc…
Subitamente, recordo-me das minhas antiquíssimas leituras históricas e políticas, da minha incipiente formação teórica. Lembro-me de ter lido, em escritos do início da Revolução Industrial que, com o surgimento e ampliação da utilização da máquina, se deveria abrir uma nova era de bem-estar, em que o homem viria a trabalhar menos horas e a ter mais tempo livre para si e para o seu próprio desenvolvimento. Recordo até de um livrinho de Paul Lafargue chamado “O elogio da preguiça”, prefaciado por Lenine! Sim, esse mesmo, o Vladimir Ilich Ulianov, o Lenine da Revolução Soviética! Hoje, quando aparentemente tal situação é aparentemente possível (muitos de nós são pouco mais que operadores de máquinas), todos se atropelam para inventar postos de trabalho, que deixarão literalmente sem tempo e sem forças os seus privilegiados beneficiários. Há de facto qualquer coisa de ilógico na organização mundial do trabalho e da produção. O Homem e a Mulher deixaram de ser o objecto e a medida de todas as coisas, para se tornarem essencialmente num “factor de produção” enquanto trabalhadores, e num “factor de consumo” durante o resto do tempo. A dimensão humana de uma “sociedade dos lazeres”, do tempo para si próprio, da harmoniosa repartição do tempo de trabalho e de descanso e lazer, de que se falava e escrevia ainda no início dos anos sessenta, essa, perdeu quase todo o sentido. Isto, para já não falar do direito das crianças a viverem e conviverem com os pais, seus legítimos e verdadeiros educadores. Mas da Família falaremos noutra altura.
É necessário e urgente reinventar uma sociedade que privilegie o valor e o sentido da vida!

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