Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2004-04-21

Abril com "R"

Trinta anos depois querem tirar o r
se puderem vai a cedilha e o til
trinta anos depois alguém que berre
r de revolução r de Abril
r até de porra r vezes dois
r de renascer trinta anos depois

Trinta anos depois ainda nos resta
da liberdade o l mas qualquer dia
democracia fica sem o d.
Alguém que faça um f para a festa
alguém que venha perguntar porquê
e traga um grande p de poesia.

Trinta anos depois a vida é tua
agarra as letras todas e com elas
escreve a palavra amor (onde somos sempre dois)
escreve a palavra amor em cada rua
e então verás de novo as caravelas
a passar por aqui: trinta anos depois.

Manuel Alegre

Sem dúvida que este 25 de Abril merecia uma atenção especial. E Manuel Alegre em poesia o celebrou, em contraponto com a proposta governamental! Com a devida vénia, aqui o cito, para benefício de todos nós.
Cada ano que passa, o 25 de Abril terá entre nós menos testemunhas, menos protagonistas. Só a grande juventude dos que o fizeram permite que ainda hoje, trinta anos volvidos, a maior parte deles ainda o possam celebrar. É que o 25 de Abril foi isso mesmo: uma revolta de juventude contra a decrepitude balofa de um regime imutável e velho de quase cinquenta anos... Portanto, nada de confusões: o 25 de Abril teve mesmo “R”! E enquanto for celebrado por quem de facto o viveu, “R” terá de ter. Quem o viveu, sabe bem que o regime anterior só aceitaria a evolução à força, com um “R”. Foi portanto uma Revolução. Não tenhamos medo das palavras, nem branqueemos o seu significado! Para medo, bastou-nos o que vivemos até esse glorioso dia de Abril de 1974: medo de ser escutado, medo de ser preso, medo de ser torturado, medo de que um pai ou uma mãe perdessem (ou nem sequer conseguissem) um emprego pelo seu envolvimento político, ou até pelo de outros que lhe fossem próximos, medo de ir para a guerra num esquadrão disciplinar ou medo de ser forçado ao exílio! E outros medos, como o medo de ser diferente, porque a diferença era negada e logo reprimida: medo de perguntar, medo de ser homossexual, medo de ser negro, medo de ser cigano, medo até de ser mulher. Quase medo de ter medo, porque o medo era opaco! E de todos esses medos já quase nos esquecemos: uns porque querem esquecer, outros porque nunca puderam lembrar! Metade dos portugueses já nem soube o que foram esses medos de incertos suores frios, essas angústias negras de nada saber ou esses brancos silêncios de nem sequer perguntar. O nosso mundo era opaco! E tudo isso, meus senhores, não foi banido por uma qualquer evolução! De um Revolução se tratou, sim, de um Revolução! Foram cravos, sim, mas só depois: a Liberdade veio na ponta das espingardas, numa manhã de ténue nevoeiro. E nem um só tiro foi preciso para o dissipar: desapareceu sob um sol glorioso, levando consigo 48 anos de medos e angústias, rasgando prisões e libertando na passagem (e por isso passou) milhões de homens e mulheres nos quatro cantos do Mundo.
Evolução, só a que a Revolução permitiu! Viva o 25 de Abril!