Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

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Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2004-03-17

A violência das armas será sempre menor que a violência da razão

Creio ser hoje inevitável falar e discorrer sobre o já chamado “11 de Março” em Madrid. Terrorismo? Certamente! Condenável? Em absoluto! Sobre quem são os culpados, há demasiadas hipóteses no ar… e quando essas hipóteses caiem por terra, podem trazer governos com elas! Tudo isso serão coisas que mais tarde ou mais cedo deverão vir a saber-se com mais segurança. De uma coisa tenho a certeza: o acto em si, independentemente de quem quer que o tenha imaginado, planeado, pago e executado, é hediondo. E qualquer uma das organizações apontadas poderia ser, neste momento, a autora. Ou seja, estamos perante duas organizações que utilizam métodos terroristas na sua acção. Mas a pergunta que me assalta é o que é de facto o terrorismo? Hoje, ouve-se falar em terrorismo como se ele fosse um objectivo, um novo credo ou uma nova doutrina política, e enquanto tal devendo ser combatido. Mas terrorismo, para mim, é uma forma extrema (e reprovável) de luta para a prossecução (ou afirmação, ou difusão) de uma ideia política (ou religiosa, ou outra) levada a cabo por um grupo de pessoas. Ou seja, o terrorismo é uma forma e não um conteúdo. Condenável, mas uma forma de luta e não um fim em si! Ou seja, pessoas psicologicamente sãs não utilizam a violência e o terror pelo simples prazer de infligir a violência e o terror! Esses serão dementes, tarados, fanáticos profundos ou desesperados em último grau. E mesmo esses, querem qualquer coisa com essa violência. Em minha opinião não há portanto “terroristas” simples, mas militantes ou seguidores de ideias que utilizam determinado tipo de violência (que designamos por terrorismo) como forma de atingir os seus objectivos. Quanto menos sabemos ou conhecemos esses objectivos, mais terroristas nos parecem, porque lhes desconhecemos a origem, e lhes vemos só as consequências. Não quero dizer que tenhamos de concordar ou sequer entendamos (na nossa lógica) as causas que os movem, mas tão só compreender que há de facto causas que os movem. Parece-me portanto demasiado fácil e falso tentar “combater o terrorismo” como um todo, porque o terrorismo serve causas, mas não é uma causa em si. Acreditar que se podem erradicar os terrorismos sem lhes determinar e eliminar as causas, é como acreditar que pode haver ovos sem galinhas ou galinhas sem ovos.
Tal como o coloca geralmente o Presidente Bush, há os “good guys” (que normalmente são os próprios americanos e os seus aliados) e os “bad guys” que são os que se lhes opõem e que lhes querem fazer mal “porque sim”. Como se o Mundo fosse um imenso filme do Arnold Schwarznegger em que uns são bons (porque sim) e os outros são maus (só porque gostam de ser maus) e a violência existisse só por si! Mas não é assim e nós, portugueses, sabemo-lo bem: Em 1961, Salazar anunciou ao Mundo (mas só nós acreditamos) que os terroristas tinham atacado Portugal em Angola. Depois em Moçambique, e depois na Guiné. E terroristas se lhes chamou até ao 25 de Abril, data em que até o próprio papa já tinha recebido esses mesmos “terroristas”, chamando-lhes “combatentes pela liberdade”, em sessão solene no Vaticano. Como terroristas começaram por ser os palestinianos da “Al Fatah” que hoje governam a Palestina com o apoio da Comunidade Europeia, dos Estados Unidos e o reconhecimento agreste do Estado de Israel. O terrorismo é portanto um pau de dois bicos: o bico dos “terroristas” e o bico dos que se lhes opõem. Mas por vezes as ideias de base e as causas já estão de tal forma confusas e difusas, que nada mais são que desespero. Será o desespero que leva a actos inconsequentes como o do dia 11? Horroroso, profundamente chocante e sem sentido. Porque se perdeu já o sentido das coisas e da vida e o respeito pela pessoa humana e por si próprio. Estaremos portanto (quase) no domínio estrito da violência, que contudo não pode ser confundida nem combatida como uma causa, mas como uma consequência que realmente é. Logo, não se pode combater ou desmantelar o terrorismo sem combater e desmantelar as suas causas. Não é portanto uma coisa se “good guys” e “bad guys”, de santuários ou de países “terroristas”, mas de choques políticos, religiosos e ideológicos. Por vezes, ao “terrorismo de grupos”, responde-se com “terrorismo de estado”: o actual governo israelita, retalia qualquer acto que considere agressivo por parte dos palestinianos com a destruição de casas e lares dos que julga próximos dos culpados. Sem julgamento, sem formar culpa, sem nada que não seja a sua presunção imediata. Sem sentido, portanto. Gerará assim mais revoltados e mais actos violentos desesperados e potencialmente sem sentido, porque ditados pela raiva. Porque não há aqui “moeda de troca” ou forma de chamar à razão. Será portanto, enquanto assim se agir, uma guerra de Talião infinita. Como infinita é a resistência dos povos enquanto se sentem injustiçados. A paciência é a melhor, mais terrível e mais aterrorizadora arma dos povos, sobretudo dos pobres. Á sua maneira, o Mahatma Ghandi era um terrorista que não usava armas. Aterrorizou os britânicos e conseguiu o que queria: libertar a Índia do domínio colonial. Jamais a força das armas que contra ele se levantaram, conseguiria derrotá-lo. Porque não era ele, mas a razão que lhe assistia. A força e a violência das armas será sempre menor que a força e a violência da razão, mais tarde ou mais cedo. É o que acontecerá no caso da ETA, das Brigadas de Al Acsa, ou de qualquer outro grupo violento existente ou que venha a ser constituído, que se lembre de utilizar exclusivamente a força e o terrorismo no seu combate político. É o que acontecerá no caso dos israelitas, dos americanos, dos espanhóis ou de qualquer outro poder constituído, que se lembre de utilizar exclusivamente a força no combate ao terrorismo tratando-o como uma causa em si e não como uma consequência.
Mas é ao que estamos assistindo.