Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2004-03-24

Ai Primavera, Primavera...

Era hoje para vos falar da Primavera. Tinha pensado para hoje, uma crónica levezinha, de celebração de bons augúrios e nova pujança, de bom tempo e nova seiva. Mas a realidade faz-nos repensar a todo o momento o quotidiano, e esse não nos traz aparentemente nada de primaveril. Os governos e as oposições são velhos conhecidos que num país se respeitam, mas noutro logo se digladiam até à morte, ao sabor de si próprios e dos seus interesses; as disputas reproduzem quase sempre velhas quezílias de gestão administrativa e nunca inovações políticas que arrisquem votos. Mantém-se o poder em lume brando, já que a imaginação de lá saiu há bastante tempo, e as ideologias reproduzem verdades pensadas há mais de um século, quando ainda mal havia corrente eléctrica. Ou seja, genericamente, nada de novo e, quando nada há de novo, tudo é velho, no mais bafiento e imobilista que a palavra contém.
De novo, de novo, só o medo. Ou melhor, só um novo tipo de medo: um medo generalizado e cego, dirigido contra nebulosas informes e difusas. São os quixotescos demónios em forma de moinhos, ou de torres, ou de comboios, ou de dancings nocturnos. De novo ainda, o facto desse medo ser vivido à escala mundial, temendo quem não se conhece, quem não se sabe o que pensa, quem não se sabe quem, como e onde ataca, e o que quer com esses ataques. Essas nebulosas, esses moinhos, são tanto o Hamas palestiniano como o actual Governo de Israel, porque exploram o medo cego transformado em ódio ao inimigo. Inimigo esse que é afinal o desconhecido vizinho do lado, com quem teremos que partilhar a vida, ou então a morte. E moinho tanto é o Governo americano e os seus tentaculares interesses, quanto essa tentacular nebulosa a que chamam Al-Qaeda. Desconhecemos quais são os verdadeiros objectivos de uns e de outros! A não ser que acreditemos na heroicidade balofa do Governo Bush que diz querer libertar o Afeganistão do sinistro e misterioso personagem Osama Bin Laden ou na cruzada islâmica de Bin Laden que diz querer libertar o Mundo do satânico Governo Bush! Mas nem o Governo Bush acabou com Bin Laden, nem Bin Laden conseguiu acabar com o Governo Bush! Incompetência de parte a parte, portanto! A Al Qaeda tem desde então povoado os nossos pesadelos. Se era intranquilidade que pretendia infligir-nos, conseguiu! Desde então vivemos na ânsia de que se capture Bin Laden e que o terrorismo cego acabe. Mas acabará? Quem acredita nisso? “Por morrer uma andorinha não acaba a Primavera”, diz o poeta. Nem o Inverno, nem qualquer pesadelo, digo eu. Disso, podemos estar certos. Porque o problema do terrorismo não existe: o que existe são os problemas (e os anseios, e os sonhos) de quem utiliza o terrorismo como forma de acção. E esses não acabam com a morte de qualquer pessoa, por mais importante que seja. E o que querem essas pessoas que têm vindo deliberadamente a morrer em nome dessa causa que o difuso Bin Laden diz abraçar (sem nunca no entanto, e tanto quanto se sabe, ter sequer sido ferido)? Quem sabe o que querem e como pensam esses milhares ou mesmo milhões de homens e mulheres (com pais, filhos, amigos, amores e desamores, como todos nós)? Que desespero e que força anímica os move? Não creio que o saibamos. Só gostamos ou desgostamos do que se conhecemos. Do que não conhecemos ou não sabemos, temos medo. E se nada sabemos nem os conhecemos, como os queremos combater e vencer? Com a exclusiva força das armas? Só matando-os a todos, um por um. E isso, acho que todos concordamos que é impensável, porque indesejável e impossível. É por isso que não me parece ingénua nem descabida e muito menos capitulacionista, a proposta do Dr. Mário Soares, de estabelecer conversações com a Al Qaeda e com outros movimentos que utilizam o terrorismo. Para tentarmos saber o que querem e porque o defendem. Porque de facto, não sabemos. A não ser que os que lhe criticaram a proposta saibam coisas que todos nós não sabemos. E se sabem, digam-no! Talvez assim a Primavera não tardasse tanto em chegar.