24, 25 ou 26?
Desde sempre, as redacções e testes das escolas foram motivo de riso. Em minha opinião, para além disso e porque as escolas acabam por ser um pouco a imagem futura do país, também foram (e são) motivo de preocupação. Se “rirá melhor quem rir por último”, aqui estamos mal, porque o riso vem primeiro e só depois a tristeza correspondente à asneirada que temos em presença. É também conveniente não esquecer que as asneiras não são coisa nova, nem produto exclusivo do eventual desnorte dos estudantes e das escolas de hoje. Houve mesmo, em tempos, um livro que consistia numa compilação de testes, exames e respostas avulsas de estudantes, chamado “A antologia dos cábulas”. Era infelizmente uma tradução de originais franceses (“La foire aux cancres”, chamava-se no original), o que não significa que por cá não se tenham produzido brilhantes exemplos: a ditadura é que não encorajava tais arrojos. Recordo alguns exemplos avulsos, produzidos e coligidos na região de Aveiro, ainda antes do 25 de Abril de 1974 (pelos inícios dos anos 70). Citarei de memória, pelo que me desculpo desde já de qualquer inexactidão na forma (que não no conteúdo) das peças que convosco quero partilhar. Deixo eventuais comentários ao foro de cada um.
Era a altura da tele-escola, da quarta classe pela televisão e ainda de algumas tímidas tentativas de educação de adultos. Muitos destes adultos queriam tão só obter a sua cara de condução, para isso tendo de passar o exame da quarta classe, escolaridade mínima obrigatória para tal. Em consonância com os valores então vigentes, o tema de uma das redacções foi “A Pátria”. Cabe aqui lembrar que nos livros da Instrução Primária, o conceito de pátria era ilustrado com um pitoresco desenho de grande harmonia e beatitude. Talvez por isso, reza assim um dos exemplos: “A Pátria tem escolas, igrejas e casas. A Pátria é muito bonita. Eu nunca fui à Pátria”. O ditador Salazar era também, e naturalmente, um tema recorrente. Eis dois exemplos: “Salazar fez escolas, pontes e estradas, e até fez a minha professora. É um gajo porreiro” Cabe aqui dizer que a professora deste diligente examinado se tinha formado em Coimbra, tendo aí sido aluna de Salazar. Outra: “Salazar é a draga-chupadeira que anda na Ria”. Como acima informei, estas redacções foram produzidas na região de Aveiro, onde na altura funcionava uma draga (para desassoreamento dos canais) que evidentemente levava o nome de Salazar (como tantas outras coisas como pontes, escolas, bairros, etc.). Não muito longe dali, havia (e ainda há) uma aldeia chamada Mata Mourisca, vá-se lá saber porquê… Tanto bastou para que uma redacção sobre o leite tivesse o seguinte texto:”Os animais que dão leite são a vaca, a cabra, a ovelha e o Senhor Prior da Mata Mourisca mas esse dá leite em pó”. Haverá também aqui que esclarecer que, por essa altura, se começou a fazer distribuição de leite em pó para crianças (mais higiénico que o imediatamente ordenhado), utilizando-se para isso os padres como meio privilegiado de chegar às populações.
Hoje, mais de trinta anos volvidos sobre estes exemplos, o fluxo não para. Valho-me para nosso descontentamento (e pequeno prazer imediato) de excertos de um teste produzido no mês passado (Fevereiro de 2004), na 2ª unidade da Área Interdisciplinar do Ensino Secundário Recorrente, em que se pedia para “caracterizar sinteticamente a situação vivida em Portugal antes do 25 de Abril de 1974, e que directa ou indirectamente conduziu a ele”. Agradeço à mão amiga que colocou este texto nas minhas mãos (que respeito integralmente), escusando-me a mais comentários, ilações ou sequer choro convulsivo:
“Portugal logo antes do 25 de Abril de 1974 era uma monárquia, em que os cidadãos viviam em função de um superior a que se chamava Heil Hitler, o rei era um tal de Salazar que fugiu para a América no 25 de Abril, com um outro chefe chamado Caetano Barroso.
Os cidadãos não podiam votar, nem falar desse mesmo partido, do rei ou uns mal dos outros, pois se falacem erão logo presos e mandados para a cadeia que ficava dentro de um buraco muito longe e fundo.
As pessoas eram obrigadas a trabalhar, a fazer o que lhes mandarem, sem qualquer objecção. E o dinheiro que recebiam ia todo, todo para o estado (trabalhavam propriamente para o estado), o que fazia de Portugal um país rico, mesmo muito rico dos mais ricos do mundo. Esse dinheiro foi roubado pelos militares do 25 de Abril, que eram soldados igenorantes e que fugiram com a massa para Espanha, Estrangeiro e Brasil, mas que deixaram por cá a democracia.
Também havia uma coisa que era a censura feita pelos pais em casa e que liam os jornais, revistas e viam os filmes e depois autorizavam ou não os filhos a ler e a ver. Também não se podia sair depois da meia-noite para a rua, nem havia nada para fazer ou onde ir, nem como, pois os carros ainda não tinham sido inventados."

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