Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2004-02-11

Onde anda a nossa auto estima?

Tenho, nestes últimos tempos, falado sobre cidadania e consciência cívica. Entendo que Portugal e os portugueses têm vindo a perder consciência cívica e cidadã e consequentemente orgulho na sua cidadania. Daqui até à perda da sua consciência cívica e do civismo, foi só mais um passo. A situação é hoje caótica, porque a falta de civismo já afecta as nossas relações interpessoais. Exemplo disso são os múltiplos pequenos diálogos -desde o pedir de uma bica até ao pagar de um jornal- que se reduzem a monólogos (eu diria mesmo “quase-grunhidos”), sem qualquer partícula de simpatia ou reconhecimento do próximo! Esta rispidez e esta falta de respeito pelo próximo (e que portanto representa também falta de respeito por si próprio) parecem ser a forma encontrada por muitos para proclamarem a igualdade adquirida com a já longínqua Revolução de Abril. Explico-me melhor: durante o período da ditadura, havia uns (poucos ou mesmo pouquíssimos) que mandavam e outros (os restantes) que obedeciam. Para fazer cumprir as despóticas determinações dos que mandavam, havia duas instituições fundamentais: a PIDE e as outras polícias e (para os homens mais jovens) a incorporação nos batalhões disciplinares e posterior entrada num dos “cenários de guerra” das “províncias ultramarinas”. É bem verdade que, para a guerra, todos teriam que ir (a não ser que desertassem para o estrangeiro, renunciando para sempre ao convívio das suas famílias e amigos), mas o facto é que um processo disciplinar podia dar direito a duas comissões nos tais cenários de guerra em vez de uma como era normal. As mulheres, regra geral, não votavam e não tinham voz activa. Assim se vivia e, quem agora tem ataques de nostalgia por tais tempos, ou estava então na “mó decima”, ou tem a memória curta, ou ainda, e este é o caso mais comum, não tinha na altura idade para perceber o que se passava. Com o fim do fascismo (há quem diga que ele nunca existiu…), a restauração das liberdades e o fim da guerra colonial, todos os anteriores valores e tipos de relacionamento foram postos em causa. Falava-se então em socialismo, em sistema cooperativo, em auto-gestão, em suma, em novos sistemas de relacionamento de uns com os outros. A anarquia andava no ar e, não fosse o grande respeito (livremente aceite) recém-adquirido pelas Forças Armadas (o célebre Movimento das Forças Armadas ou MFA), e acho que teria havido mesmo uma guerra civil. É que todos andávamos à procura de conceitos e limites para esses conceitos: o que é a liberdade, o que é a cidadania, onde acaba a minha liberdade e a minha cidadania, é legítimo ou não ser-se nacionalista, para se ser cidadão do mundo é ou não preciso rejeitar-se o orgulho nacional. Estas perguntas mais ou menos explicitamente, andavam senão na boca, pelo menos no espírito de toda a gente. A resposta deveria ser dada pela própria evolução dos movimentos sociais. E é aqui que surgem os partidos como entidades organizadoras do nosso próprio pensamento. Neles residiriam todas as respostas necessárias. Mas os partidos, por mais antigos ou novos que fossem, eram também feitos de gente a aprender o que era ser-se democrata, o que era ser-se cidadão de pleno direito, o que era viver em liberdade. Com a súbita importância dada quase exclusivamente aos partidos, na sequência do 25 de Novembro, toda a responsabilidade da definição destes termos e do seu conteúdo passou para eles. Desde então, o jogo dos partidos tem-nos deixado a todos fora da discussão, fora da definição do que queremos ser, fora da discussão do que queremos que o nosso país seja. Hoje, somos um povo à procura de entidade cidadã, que não acredita nem se revê (se calhar felizmente) nos partidos e nos políticos de que dispõe. Neste capítulo, a entrada na União Europeia só veio baralhar as coisas, pois os limites da independência nacional foram postos em causa e tiveram de ser reequacionados. Não está aqui em questão a necessidade ou a bondade da nossa entrada para a Comunidade, mas as suas consequências em termos psicológicos. Porque nada foi feito em contrário, entramos em crise de auto-confiança, de crença nas nossas próprias possibilidades, e de identidade nacional. Logo, entramos também em crise de cidadania e de consciência cívica. Numa expressão, que de tanto utilizada já começa a estar gasta, entramos em crise de auto estima. É aí que estamos, segundo os entendidos. Resta agora saber como a poderemos recuperar. E se a recuperaremos com os partidos. Ou, pelo menos, com estes partidos, na sua actual formulação. A ver vamos… mas os partidos (e os políticos) que se cuidem!