O elogio do cidadão António Valente
Ouvi há dias num noticiário, suponho que da Antena 1, que o Sr. António Valente, cidadão português da zona de Aveiro, tinha ficado bastante emocionado com o trabalho dos bombeiros durante os terríveis fogos deste último verão. Até aqui, nada de especial: houve milhares e milhares de portugueses a quem aconteceu o mesmo. O Sr. António Valente é um cidadão de 75 anos, com os escassos meios de fortuna próprios de quem trabalhou a vida inteira. Não tem comendas nem grandes estudos, nem qualquer projecção nos meios de comunicação social. Até aqui, e mais uma vez, nada de novo: essa é a posição da maioria dos cidadãos contribuintes deste país.
Então o que torna notável o Sr. António Valente? É que o Sr. António Valente, tal como todos ou quase todos nós, ficou bastante impressionado com os fogos deste último verão e emocionado com o trabalho dos bombeiros, a que assistiu através da televisão. Ficou sobretudo impressionado com as condições de trabalho e a falta de material de que se queixavam os bombeiros, e que era visível através das inúmeras reportagens que então se fizeram. Pois tal foi quanto lhe bastou para consultar a sua consciência, conferir o seu pé-de-meia duramente conseguido, e decidir que tudo o que pudesse fazer para ajudar os bombeiros, o fazia a si e aos outros que um dia precisassem: decidiu oferecer aos chamados Bombeiros Velhos de Aveiro, uma ambulância nova! E demorou até agora a obtenção da ambulância, em função das condições e do dinheiro de que dispunha. E foi agora que a ofereceu! E é exactamente aí, no passar do lamento à prática que o Sr. António Valente se torna diferente de todos nós!
Comoveu-me a atitude deste homem com a vida já feita, sem pretensões a nada nem sequer ao reconhecimento público do seu acto. Ouvi-o falar em breve entrevista e percebi que o que o movia era tão só a sua “boa consciência”! Não a “má consciência” que tantas vezes move gente com muito maior capacidade financeira, e que pretende com gestos aparentemente semelhantes (só aparentemente), uma forma de redimir publicamente os seus “pecados”, obter reconhecimento público e até, quem sabe, receber uma medalhita do poder… Mas este Sr. António Valente não! A ambulância saiu-lhe do trabalho de uma vida e não apenas do seu bolso! Foi a oferta da sua vida de trabalho à comunidade. Estamos habituados a ver os beneméritos, geralmente posteriormente promovidos a comendadores, contribuírem generosamente com uma ambulância ou até duas. Mas nunca, ou raramente, fica a sensação de que para isso tenham feito um grande esforço; antes parece que as suas ofertas são uma espécie de absolvição de remorsos. Não que o acto de oferecer não seja em si meritório, mas parece sempre que antes se fizeram –pelo menos- as contas à folha de impostos…
Confesso, em consciência, que não sei se este acto contribuirá para que o Estado se escuse à sua função de prover os bombeiros (profissionais ou voluntários) com todo o material que necessitam. Mas reconheço que o gesto do Sr. António Valente é um gesto de elevada consciência cívica e de pessoal reconhecimento do valor do trabalho e da acção dos bombeiros, a quem todos, sem excepção, deveríamos estar gratos. A começar pelo próprio Estado, que deveria ele também seguir o exemplo do Sr. António Valente e fazer alguns sacrifícios (neste caso público) e contribuir generosamente para o perfeito apetrechamento dos bombeiros.
Diz-se que em Portugal há pouco espírito cívico e de entreajuda. Mas haverá que questionar essa postura aparente do povo português. É que, se o exemplo do cidadão António Valente pode ser considerado raro, quase único, já o mesmo não se poderá dizer dos bombeiros voluntários. Não conheço país nenhum em que a percentagem de bombeiros voluntários seja tão grande quanto a que existe em Portugal. E não creio haver maior demonstração de entreajuda e de altruísmo, que a que é necessária para alguém se propor, a troco de nada, ajudar os outros nos piores momentos e nas mais dramáticas situações. Diria mesmo que os bombeiros voluntários são eles também, um pouco Sr.s Antónios Valentes! Bem hajam, um e outros!

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