Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2004-02-18

A não-caça e a não-caca!

Este últimos anos os fins-de-semana estão mais calmos que em anos anteriores. Podemos mesmo passear pelo campo, sem perigo de nos cruzarmos com grupos de caçadores, para quem os que se simplesmente se passeavam eram um estorvo. Não estou evidentemente a falar de todos, mas de muitos caçadores com que me cruzei em muitos anos de tranquila busca da calma e da observação da vida selvagem por montes e vales. Era já de si assustador o contínuo ruído dos disparos, que afastava até os mais temerários pássaros, muito dos quais nem sequer eram visados pelos tiros. Mas o facto é que quintas-feiras e domingos eram dias de tormento. Andar no campo era portanto um jogo perigoso e inglório, pois tudo fugia e os tiros podiam surgir donde menos se esperava! Quanto aos caçadores, muitos olhavam-me como se eu fosse assim uma ave rara e eu, por cuidado, deixei de exercitar esse meu prazer de me passear. Pois se eles andavam aos pássaros e eu era uma ave rara, o melhor era acautelar… e então desde que iniciei essas deambulações com o meu filho, redobrei de cuidados e o encerramento destas nossas actividades passou a coincidir com a abertura da caça. Por precaução. Não falo de todos os caçadores, nem nada me move globalmente contra eles. Conto até com alguns bons amigos que são caçadores, e sei também que estão de acordo comigo. Veio então a lei da não caça! Bem vinda! E essa lei veio devolver a milhões de portugueses vastas áreas de calma e segurança que anteriormente eram semanalmente abaladas por centenas de milhar de caçadores. Com a delimitação de áreas de caça, as condições de segurança de quem simplesmente quer gozar a tranquilidade de uma ensolarada tarde de sábado ou domingo aumentou. E não só por essa lei, mas também pelo apertar das condições exigíveis a quem se passeia com uma arma mortífera, que (sem dúvida) pretende utilizar. E é sabido como bebiam muitos dos caçadores, nas horas frias e entediantes de espera pelos incautos animais. Alguma coisa melhorou neste país!
Já agora, e a talho de foice, não será também altura de passarmos do civismo da caça em meio rural e silvícola ao civismo urbano? Se a situação da caça está bastante melhor nos campos e montes, não será altura de tentar transformar também as ruas das cidades em locais mais aprazíveis? É uma questão de cedilhas e de civismo… Explico-me melhor: se a caça nos montes está regulamentada e mais cívica, não será altura de se pensar em regular a caca urbana? É que muitos dos felizes possuidores de muitos dos infelizes cães (que não os cães de caça, porque esses não são passeados pelas ruas), acham que as ruas das cidades são excelentes para o alívio da tripa dos pobres animaizinhos. E nós, pobres utentes dessas mesmas ruas, temos de nelas progredir com cuidado, e com frequência evitarmos a “caca grossa”. Os mais incautos e mais afortunados, podem safar-se com uma limpeza depois de um destes escorregadios encontros; os menos afortunados podem vir a precisar de “concertar” um osso ou tratar de uma qualquer luxação causada por uma queda mais aparatosa.
Vamos lá… custa pouco ter um mínimo de respeito pelos outros. Os lisboetas tiveram durante bastante tempo, a obrigatoriedade de apanhar os cocós dos seus próprios bichinhos. Acho que a lei deve ter escorregado em qualquer coisa, porque Lisboa está outra vez mais suja. Mas com Lisboa (nós que por outras cidades vivemos) podemos nós bem. É em cada cidade que se deve incrementar essa regra elementar de higiene. E ela começa no civismo de cada um. As multas e outras sanções devem envergonhar quem as paga, mas não substituem o civismo. Esse, parte de cada um de nós. Quem tem cães, que os cuide, sem perturbar quem os não tem, ou quem deles sabe cuidar.
Em resumo, agora que já nos livramos da caça sem regras, é altura de nos livrarmos também da caca sem regras!