Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

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Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2004-01-21

Terceiro Poder e Cidadania

Chama-se normalmente à imprensa o terceiro poder. Para nós, e até há trinta anos atrás, isto é, até ao final de Abril de 1974, a expressão “terceiro poder” não tinha sentido. Havia um único poder (o do governo) que, por vezes, se associava ou se chocava com outros poderes menores, como o da Igreja ou o dos grandes potentados. Estou a lembrar-me da Fundação Gulbenkian e do seu fundador, o Sr. Calouste Sarkis Gulbenkian, que obrigou o Salazar a libertar da cadeia onde a PIDE o tinha metido, aquele que haveria de ser, uns anos depois, o presidente da própria Fundação: o Dr. Azeredo Perdigão. É o que reza a lenda! Mas esses, já se vê, eram pequenos poderes. Havia ainda o pequeno poder da inteligência, que por vezes conseguia fazer passar através das malhas censórias do poder algumas notícias que de outra forma não conheceriam divulgação. Havia então uma “arte de ler jornais” que nos habilitava a saber um pouco mais que aquilo que o governo queria que soubéssemos. E era tudo. Pois nesse já longínquo ano de 1974, corria o mês de Julho, tive a sorte de poder estar cerca de um mês nos Estados Unidos da América, e assistir (quase em directo) à destituição (formalmente, uma resignação) do presidente da talvez maior potência mundial (na altura, haveria que discutir se era ele ou o presidente da União Soviética). Aí, entendi o que pode ser a força e o poder da imprensa, e porque lhe chamavam já o “terceiro poder”. Por cá, fomos europeiamente aprendendo o poder dessa força. Hoje, é-nos impossível compreender o país e o mundo sem os mass média (ou, em português, os meios de comunicação de massas). Os jornais, a rádio e a televisão põem e dispõem o que pensamos. As coisas só passam a ter existência se forem publicadas num qualquer meio de comunicação. Portanto, o facto de ser notícia já é quase notícia! É que os “média” não se limitam a relatar as notícias: seleccionam-nas, interpretam-nas e atribuem-lhes a importância que querem, conseguindo assim, de certa forma, manipulá-las. E, por vezes, nesta luta absurda e inclemente de audiências, de que os jornalistas são por vezes meros joguetes, tudo é possível. Dão-se mesmo ao luxo de entrar na intimidade de todos e de cada um: é ver o choro reprimido (e portanto íntimo) de uma vítima que um incêndio deixou sem nada, ou as manchas de sangue após um qualquer acidente num qualquer IP, para já não falar de cadáveres, cobertos ou não com um lençol. Que se ganha em termos noticiosos com isso? Nós, nada, mas a exploração da sordidez ou a entrada na intimidade de terceiros, vende publicidade! E isso é o importante porque a nobre missão de informar está dependente do dinheiro obtido pela “venda” dessa mesma informação (eu diria espectáculo). E é assim que cada vez mais os órgãos de informação estão dependentes das empresas de publicidade. Correm portanto mais riscos e facilmente são absorvidos. Os grandes grupos absorveram a grande maioria dos pequenos meios de comunicação, condicionando e massificando assim a informação a que temos de facto direito. Mas em tudo isto, os jornalistas também não estão isentos de culpa, e o caso “Casa Pia” é disso um bom e alargado exemplo. E porque os próprios poderes (económico, político, etc.) se sentiram incomodados com isso, fala-se de novo de censura. Aqui o declaro: serei sempre contra a censura. Nada a justifica em tempo de paz. Não é admissível que tenha que haver alguém que se coloque sobre os outros e tenha como função julgar o que alguém quer transmitir. Mas também é inadmissível que esse alguém, que quer transmitir o que quer que seja, não tenha consciência do que é o limite entre a notícia e o espectáculo. Porque esse limite só pode ser pautado pela consciência cívica de cada um. O que é preciso é que os jornalistas tenham consciência cívica. E isso, infelizmente, é coisa que não abunda.
Nota: Congratulo-me com o facto de o “Diário do Sul” ser, tanto quanto julgo saber, um dos poucos jornais da imprensa regional que não está ligado a nenhum grupo económico de comunicação social. Talvez por isso, nunca qualquer um dos meus 134 textos até agora editados foi cortado ou censurado.