Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

Nome:
Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2004-01-14

Eu sou português aqui, nos cordões do desenrasca…

Leio que Portugal é o país menos desenvolvido da Comunidade Europeia e que cada vez menos se aproxima da média de crescimento necessária à plena integração neste espaço que é, por direito geográfico, nosso também. Ou seja, cada vez estamos mais longe dos níveis europeus.
Recordo-me também de dois versos do meu amigo, arquitecto e poeta Zé Fanha
“…Eu sou português aqui/Nos cordões do desenrasca…”
E as coisas não jogam…
Como é possível que enquanto português eu me reveja nestes versos que celebram a criatividade, a inteligência, a liberdade e a imaginação, numa palavra, que celebram o desenrascanço, e me conforme com o facto de habitar, de trabalhar e de pertencer –de pertencermos todos- ao país que cada vez mais se afasta dos padrões de vida em que decidiu apostar como desejáveis e possíveis há mais de quinze anos? E que, se tudo correr como previsto, daqui a três meses se arrisca a passar do actual 15º e último lugar dos países da Comunidade a 25º ou próximo, com a entrada na comunidade de dez novos estados?
Será mesmo este país, este Portugal, que “matou” o terríficante Adamastor, que cruzou o Atlântico Sul, o Índico e o Pacífico “em trabalhos e guerras esforçados, mais do que permitia a força humana”e que fez recuar o Tratado de Tordesilhas até onde quis, contra a vontade do próprio Papa?
Isto, para não falar já do prestígio da qualidade de trabalho e espírito de iniciativa dos emigrantes portugueses na Europa, onde em muitos países contribuem para uma das mais elevadas produtividades mundiais. E nos Estados Unidos. E no Brasil. Enfim, no Mundo!
Há contudo um ponto comum a todas estas nossas glórias: é que todas foram ou são conseguidas no estrangeiro! Então, digo eu, haverá que descobrir cá o mal! Aparentemente, é aqui, é cá que reside o que quer que seja que está mal. Pois se lá fora somos bons, o que será que faz com que dentro não o sejamos? O que muda realmente, quando cruzamos as fronteiras do nosso próprio país? Essa é a descoberta necessária e urgente...
Parece que a saída nos liberta. Nos torna independentes. Arriscados. Autónomos. Que nos torna conscientes, cidadãos. E quem muda? E o que muda? Mudam as condições de trabalho e os seus padrões. Mudam os patrões. Mudam as limitações burocráticas e as pequenas corrupções. Muda portanto a mentalidade e os seus mentores. Mudam as regras e os regulamentos. Isto é, muda tudo quanto não é criatividade, iniciativa ou inteligência, que é o que de melhor temos e a que o poeta chamou “os cordões do desenrasca”!
Então terá de ser pela imaginação, pela criatividade e pela iniciativa que deveremos lutar. E que mude a burocracia, o comportamento-padrão e o espírito dos patrões. Ou seja, teremos de “desenrascar” um país melhor. Como sabemos e podemos fazer.
E então haverá um futuro para Portugal.