2004 – Por um Ano da Cidadania e do Civismo
Ano novo, vida nova, é costume dizer-se. E embora não me pareça que a vida neste ano que agora começa possa vir a ser muito diferente da do ano que passou, atrevo-me a dizer que será diferente se nós assim o quisermos! Trocando em miúdos, acho que as condições reais e exteriores (custo de vida, nível de vida, expectativas proporcionadas pelo desenvolvimento do país, etc.) não se irão alterar muito, mas também acho que nós podemos fazer a diferença, se assim o quisermos (pela nossa iniciativa, pelo nosso empenho, pela nossa “cabeça”, etc.). Seguindo aquilo que eu próprio aqui escrevi a semana passada, proponho-vos o “Ano da Cidadania”! De facto, acho que temos andado todos muito arredados das nossas funções cidadãs e cívicas. E, pelos vistos, isso não nos deu melhorias nenhumas de vida, antes pelo contrário! Como exemplo de algibeira, ainda no passado sábado, numa sondagem aleatória (e sem valor formal, é certo) publicada pelo Jornal “Expresso” promovida entre os seus leitores (o “Barómetro Expresso”, com votação via Internet), à pergunta “Como justifica a elevada sinistralidade nas estradas portuguesas?”, 73,35% de quem respondeu afirmava ser a falta de civismo. As más condições do piso e a deficiente sinalização eram apontadas por 11,97% dos votantes e finalmente, a permissividade na aplicação da lei (8,45%) e a inadequação do ensino nas escolas de condução (4,23%) recolhiam valores residuais. E se olharmos bem, as quatro causas são quase a mesma… Explico-me: se a população não tem um comportamento civicamente adequado (e não terá), deve ser pouco menos que inútil pensar que a administração pública o terá! E se é essa administração que está encarregada da sinalética e dos cuidados com o piso, não será contraditório deduzir-se que não se preocupe o que se deveria preocupar. Até porque essa administração é (em princípio) composta desse mesmo tipo de “cidadãos com pouco civismo”. E perante uma população que não sabe ou não exerce os seus direitos e deveres de cidadania e civismo, não será preciso uma administração preocupar-se muito… Depois, vem a “permissividade” policial. Há aqui que não confundir “permissividade” com “flexibilidade” ou “compreensão”: se a aplicação da lei pudesse ser cega, não seria preciso treinar ninguém na sua aplicação, e é! A prova disso é que, desde que os agentes policiais são mais instruídos e treinados (e não, como antes do 25 de Abril, recrutados entre militares desempregados das guerras coloniais), a qualidade da prestação policial tem aumentado. Deverá portanto tender a baixar a permissividade e a aumentar a flexibilidade e a compreensão. Mas o facto é que também eles, embora aparentemente formados na área dos direitos cívicos, são produto desta mesma sociedade “des-civilizada” onde um “obrigado” e outras formas de cortesia e civilidade são cada vez mais raras… e já se sabe que os maus exemplos prevalecem normalmente sobre os bons. Finalmente, o ensino das escolas de condução… que dizer dele quando um dos grandes da área (dono de várias escolas e presidente de uma associação do sector) é apanhado a mais de duzentos à hora e afirma publicamente que com frequência o faz, infringindo conscientemente a lei? Nada! Está quase tudo dito! Aparentemente, parece que as escolas de condução se limitam a ensinar a mexer nos comandos de um carro e a bem iludir a polícia… Não será assim, mas o facto é que o senhor “apanhado” foi eleito por alguns dos seus pares para sua representação! Mais uma vez, não surpreende, dado que “todos somos cidadãos pouco civilizados”. Mas também seria interessante saber algo mais sobre os condutores envolvidos em acidentes. Nomeadamente, qual o número de anos de carta que têm e, já agora, também qual a sua média de idades e qual o número de motociclistas envolvidos. A informação a este nível é escassa demais para que se possa saber “quem” tem acidentes, mas no fundo, são quase sempre questões de civismo e de consciência cívica que estão na sua base! E o civismo, embora se pudesse e devessem aprender (também) na escola, depende (também) de nós próprios. Suponho que na primeira República, havia uma disciplina de “Educação Moral e Cívica”. Depois, no salazarismo, foi substituída pela disciplina de “Religião e Moral”. Não estará agora na altura de voltarmos a ter essa “Educação Moral e Cívica” nas escolas? Mas enquanto não volta (se voltar), será melhor que metamos a mão na consciência e reponhamos em prática o civismo que por lá seguramente ainda existe. Acreditem que contribuiremos para um mundo melhor para todos. Um mundo mais solidário, mais equalitário e mais respeitador de cada um. Em suma, um mundo mais civilizado

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