Ao correr da pena

São crónicas escritas "ao correr da pena", e publicadas todas as 4ªs feiras no Jornal "Diário do Sul" de Évora

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Localização: Évora, Alentejo, Portugal

2005-08-17

Casa dos Políticos JÁ!

Pela “Net” (para quem ainda não se converteu às novas tecnologias, “Net” é a rede que une milhões de computadores numa única aldeia global, permitindo que todos comuniquem com todos) chegam por vezes coisas interessantes. De facto, muito do que chega é publicidade indesejada (e nem se imagina do que os publicitários são capazes…), mas por vezes chegam umas coisas divertidas e outras interessantes. O necessário é fazer a triagem e ler só o que nos interessa. O que aqui vou reproduzir chegou-me por esse meio e creio que se adequa bastante bem ao momento que vamos vivendo, a esta silly season (ou, em português, “estação parva”) que não nos dá descanso entre tantos “porquês”… Eles são os “porquê tantos fogos?” e os “porquê tantas diferenças entre portugueses que veraneiam?”, ou ainda os “porquê tanta falta de candidatos presidenciais?”. Mas como esta época é para que se pense pouco e se descanse o máximo que se puder, aqui vos deixo sem grandes comentários o “e-mail” (mais uma vez, e para os excluídos informáticos, tal calão significa “correio electrónico”) que me chegou do Brasil e que reproduz um pensamento atribuído a Rita Lee, cantora e activista brasileira, de quem este creio ser o segundo texto que reproduzo (se não me falha a memória, o primeiro foi sobre o machismo). Aqui vai, sem mais retoques:
No programa do Amaury Jr., a cantora e activista Rita Lee teve uma daquelas idéias brilhantes, dignas do seu génio criativo: Reclamando a inutilidade de programas como o Big Brother, deu a seguinte sugestão: colocar todos os pré-candidatos à Presidência da República trancados em uma casa, debatendo e discutindo seus respectivos programas de governo. Sem marketeiros, sem máscaras e sem discursos ensaiados. Toda a semana o público vota e elimina um. No final do programa o vencedor ganharia o cargo público máximo do país. Além de acabar com o enfadonho e repetitivo horário político, a população conheceria o verdadeiro caráter dos candidatos. A idéia não é incrivelmente boa? Se você também gostou, mande essa mensagem para os amigos e compartilhe essa campanha: Casa dos Políticos JÁ!
Só duas notas para dizer que “marketeiros” é a expressão brasileira para os homens que cuidam da imagem e do marketing dos candidatos e que, obviamente, esta proposta se destina ao Brasil e aqui a reproduzo simplesmente por a achar divertida. Qualquer semelhança com a realidade portuguesa é pura coincidência.

2005-08-10

O que nos consome nos incêndios…

Este é o terceiro ano consecutivo em que me vejo a falar sobre incêndios florestais. Cada ano que passa, Portugal arde em proporções que eu julgava já não poder arder por falta de floresta, mas não! De norte a sul, uns anos mais no Algarve (como o ano passado), outros mais no norte (como este ano), somos flagelados por incêndios de enormes proporções e consequências. E também em cada ano renascem as mesmas dúvidas sobre as origens de tão nefasta ocorrência: negligência ou fogo posto? Creio que as duas origens deverão ser igualmente verdadeiras. Só não sabemos quais as proporções relativas de uma e de outra. Nem quais os interesses envolvidos na segunda. E por maiores esclarecimentos que nos venham a prometer ao longo dos anos, até hoje nada de concreto há sobre o assunto, o que contribui para adensar as suspeitas mais sinistras. Aparentemente, este ano, parece haver maior eficácia por parte dos bombeiros na detecção precoce e no combate aos fogos. E isso é bom. Cada vez mais se ouve falar da ajuda da população e dos militares. E isso é também bom. O que não é bom é que, com o fumo, se levantem sempre nuvens de suspeitas sobre o envolvimento de bombeiros no chamado negócio dos fogos. Acredito firmemente que isso possa acontecer mas, para ser negócio chorudo, só pode ser um negócio de poucos. O que quer dizer que a esmagadora maioria dos bombeiros, o que faz é expor a vida para socorrer o seu semelhante e os bens privados e públicos. Além do mais, sabemos que a grande maioria dos bombeiros portugueses são voluntários e por isso, expõem gratuitamente a única vida que têm. Em nome deles e em sua honra, creio que todos lhes devemos a exigência de um inquérito rigoroso, rápido e público ao negócio dos incêndios e do seu combate. Saber porquê, por exemplo, todos os meios aéreos são contratados a particulares e não propriedade das corporações dos bombeiros. Ou da Força Aérea. Ou de qualquer outra entidade estatal. Para quantos aviões e helicópteros dava o montante pago em alugueres todos os anos? A quem aproveita o aluguer dos meios aéreos, muito justamente tidos como indispensáveis? E a que propósito se vão comprar dois submarinos quando com o dinheiro de um único se poderia comprar uma esquadrilha de aviões de combate a incêndios e ainda alguns helicópteros? Sei o que se perde com a falta desses meios aéreos, mas não vislumbro o que se possa ganhar com a aquisição de um submarino… Acredito também que, com a nossa floresta a ser protegida por uma esquadrilha estatal de aviões e helicópteros de combate a incêndios, em breve esta produziria meios para comprar os tais submarinos. Mas não estou a ver como os submarinos podem contribuir para que Portugal seja mais produtivo. Pode ser falta de visão minha, mas sinceramente não vejo.
Prometeu-nos José Sócrates quando tomou posse que as coisas passariam a ser como sempre deveriam ter sido, e que a transparência das atitudes seria regra. Com o fumo que vai no ar, com dificilmente se poderá cumprir este desígnio. Espero que a tempo e em tempo se apaguem os fogos das nossas incertezas, se aclarem as nuvens negras das nossas dúvidas, e se dissipem as colunas de fumo das nossas suspeitas. Não só os bombeiros como todos nós teremos a ganhar com isso. Não é de aberturas de inquéritos que estamos precisados, mas de “fechaduras”, de conclusões em tempo, e das respectivas repercussões. Para que (quase) todos saiam a ganhar e não (quase) todos saiam a perder. Porque só quando se souber quem são os poucos que sairão a perder é que todos os outros sairão a ganhar. E “todos os outros” é a esmagadora maioria dos portugueses de hoje e todos os portugueses do futuro. Porque é o futuro que hipotecamos, cada vez que arde uma árvore.

2005-08-03

O rumo do estado de graça

Todos os governos, quando iniciam funções, têm um período de aceitação quase beatífica de todas as atitudes que tomam. Chama-se a esse período “estado de graça”, e bafeja quase todos os governos, independentemente do quadrante que os origine. Poucos são os que até hoje não gozaram desse período de bondade. O Governo Santana Lopes foi claramente uma das raras excepções: nunca esteve em estado de ter graça. Nisso tem Santana Lopes razão, mas acho que só nisso. Creio que, em vez de se lavar em lágrimas e se desfazer em justificações, entrevistas e recriminações carpindo-se do facto, se deveria perguntar o porquê dessa condição do seu Governo. Só o evidente autismo justificará a recusa de entendimento da realidade. Não é desse governo que eu hoje quero falar, mas veio a talho de foice.
Quando o actual Governo Sócrates iniciou funções, beneficiou do sacrossanto “estado de graça”. De mais a mais, e porque ao Governo Santana Lopes ele não tinha sido concedido, havia esse desejo. Assim, tudo ou quase o que o actual governo disse, decidiu e propôs durante os primeiros meses, foi aceite como bom. Havia algumas objecções relativamente a “detalhes” como o do aumento do IVA, mas o resto, embora nos fosse pesado e penoso, entendíamos. Falava-se no fim dos privilégios por anos intocados dos funcionários públicos de luxo e não só do prolongamento do tempo de serviço dos funcionários públicos “do costume”, no pagarmos todos a crise e não só os “do costume”, no inevitável estreitamento da cintura das calças de ricos e pobres (antigamente, quando havia cintos que servissem, chamava-se “apertar do cinto”), no fim dos tratamentos de excepção e da moralização da vida pública. Falava-se também de ambição e progresso (e aí estavam os “projectos estruturantes” como o TGV ou o novo aeroporto) e isso ajudava a compensar a desesperada imagem que, subitamente a seguir às eleições, nos deram de nós próprios. Mas o tempo foi passando e hoje, no início da cíclica “silly season” deparamo-nos com outra realidade. Levantam-se fumos de suspeitas sobre o porque se quer o novo aeroporto na Ota em vez de Rio Frio, ou até, dada a crise, activar aeroportos que já existem (Montijo, margem direita ou até mesmo Beja) para prolongar a vida do da Portela. Até a oportunidade e eficácia do TGV é colocada em causa e posta em dúvida a bondade da iniciativa. No entanto, para mim, o problema não está nos ataques nem na sua substância. Para mim, o problema está na pobre, frágil e desconexa defesa que o Governo faz desses projectos ditos estruturantes. A ajudar à festa, a demissão do Ministro das Finanças que, se não era o mais querido dos ministros (ninguém se conseguiu esquecer da reforma dele…), era pelo menos tido como credível. De mais a mais, já tinha havido outras alturas em que, pelo menos publicamente, a sua demissão se teria justificado bastante mais. Como se isto não bastasse, o Ministro dos Negócios Estrangeiros desata a questionar o Governo sobre a política interna que estava a ser seguida, como se não fosse membro desse mesmo governo, mas sim candidato à Presidência da República. E subitamente, o Governo, confrontado com questões que nos pareciam a nós de fácil resposta e tranquila justificação, enreda-se num novelo de que não consegue sair, e dando rebuscadas justificações e complicadas respostas. E então tudo soa a requentado, a coisa já vista (ou “déjà vu”, como alguns gostam de dizer), a justificação inconfessável. Pode ser que não seja assim mas o facto é que a ideia de segurança e determinação que o Governo transmitia está a ser substituída por uma surpreendente ideia de casuísmo e errância. Exemplo disso, a história dos candidatos presidenciais a apoiar pelo partido do governo, por mais que alguns activos militantes nos queiram fazer acreditar no contrário. Isto, para já não falar de alguns candidatos autárquicos em cidades-chave que parecem saídos do nada, ou da desadequação técnica de alguns nomeados para lugares-chave de empresas sob tutela estatal. Pode ser que não, mas tudo isto cheira (pelo menos) a feira de vaidades. E não é com vaidades destas que se coloca o país no rumo certo. E que ele precisa urgentemente desse rumo, é o que todos sem excepção concordamos.

2005-07-27

When I’m sixty-four…

Portugal está velho… Nas próximas eleições presidenciais não haverá candidatos credíveis (enquanto tal) abaixo dos sessenta e quatro anos! Todos os que até agora se perfilaram, já ultrapassaram essa fasquia. Mário Soares até já dobrou os oitenta. Ser presidente da República parece estar a tornar-se uma ocupação para reformados, mesmo entendidos segundo as novas normas… Qualquer dos candidatos que venha a ser eleito, dos que até agora se dispuseram a disputar o cargo, será seguramente o presidente da República mais velho que Portugal já teve desde o fim da Primeira República. Isto, considerando a eventual eleição de Mário Soares como uma primeira eleição, e não como uma reeleição (que na prática não é).
Não poderemos esquecer a candidata Manuela Magno, abaixo dos sessenta anos, mas trata-se de uma candidatura isolada, individual, “fora do sistema”, como outras poderão ainda aparecer, e que não têm expressão material na definição do próximo habitante de Belém. Os “pesos pesados” – Mário Soares, Cavaco Silva e Manuel Alegre – estarão então todos acima dos sessenta e cinco anos. Freitas do Amaral só completará sessenta e cinco em Abril (depois, portanto, das eleições), mas todos os outros já os terão completado nessa altura. Olhando para trás, só o episódico (e designado) General António Spínola tinha também 64 anos quando assumiu o cargo de presidente durante alguns meses de 1974.
Não é que a velhice não seja “um posto” mas em minha opinião, o facto de os candidatos serem cada vez mais velhos é produto do sistema político português, que não incentiva a renovação dos seus próprios quadros. A vida política está assim sujeita a “limitações na progressão na carreira” que deixam poucas expectativas aos jovens que queiram por aí singrar. Só o CDS/Partido Popular parecia contrariar esta tendência (mas a direita nunca foi um reduto tradicional da juventude). A presidência do país será um mero reflexo disto: só velhos candidatos, três deles com pelo menos uma candidatura ao cargo (Manuel Alegre não, que a sua militância poética não lhe deixava tempo para tal). Portugal vê-se na necessidade de recorrer “aos velhos”, de os “empurrar” para as candidaturas como quem quer usufruir deles mais alguma coisinha que ainda não tenham dado, ou como quem precisa de um esteio de segurança.
Sem dúvida que a lei de limitação de mandatos é urgente! Eu arriscaria mesmo a dizer que, se ela não existisse já para os Presidentes da República, Mário Soares ainda hoje seria o Presidente, tal como Alberto João Jardim ainda o é na Madeira e Fernando Caeiros também, em Castro Verde. Ou seja, enquanto um presidente resiste (Abílio Fernandes foi a surpreendida excepção), as forças partidárias que o suportam não vêm necessidade em rejuvenescer os seus quadros e depois, quando precisam deles, não os têm. A limitação de mandatos é urgente para que se comece a renovar o espectro político português, já que os partidos não o fazem naturalmente e de moto próprio. As “cotas de mulheres” são disso prova cabal. Portanto, já sabe… se tem pretensões a Presidente da República e é conservador, espere pelos sessenta e quatro anos. Se não, pugne para que o acesso dos jovens à vida política seja cada vez mais amplo, deixando para os mais velhos aquilo que eles melhor sabem e gostam de fazer: contar estórias morais e tratar dos netos. Entretanto, boas férias!